terça-feira, 22 de agosto de 2017

Lique(faz)-me a tez



Quase sempre de repente, despertada pelo calor de uma pessoa, ou de suas histórias, ou pela ânsia de tocá-la, ou ser tocada, ou ainda pelo intenso prazer de cortejar minhas formas... qualidades que me resguardam de um prazer vazio, oportunizam-me um deslumbre liquefeito em cadência de desejo, fulgor, amassos (os mais íntimos que já senti) e toques profundos.
Sinto desejo por mim quando me penetra a vida de paixões, cobiças por sentir as fronteiras que me condenam a uma jovialidade lânguida por fora, mas frenética por dentro. 



Em fricções harmoniosas entre os dedos, as fantasias e o sabor glacial que contorna a minha boca, afago o meu animo e continuo o passeio em que engendro o meu relevo, em uma anti-descoberta. Percorro meus espaços, desenhando meus furos, frestas, ranhos, depressões, planícies e planos altos, sobrepujando um desassossegado gozo que me acaricia as entranhas, enquanto lubrifica-me as partes sólidas.



Ao longo desses instantes não sou mais só rigidez, a flexibilidade que não expresso cinicamente, esfria-me o ventre em contrações que fazem minhas mãos por mim escorregar, lavando as vestes quando ainda as tenho, levantando as ancas já aquecidas, intumescendo meus seios e alagando minhas extensões mais baixas. Enquanto ao sul do meu corpo, as sensações se entrecortam, espalham e excedem. Ora correndo como uma energia vibrante e caliente, ora escorrendo como um pingo leve de água bem gelada a percorrer-me a tez ardente. 
(HCQF, Agost-2017) 
OBS: Imagens colhidas do Google

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Clarice Lispector(1998): Perdoando Deus

~* Significado subversivo em mim: perdoando (a)Deus



~* Trechos do Texto, "Perdoando Deus", de Clarice Lispector, ditos da maneira como fazem sentido em mim:
"É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte...
Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente...
Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele".
(LISPECTOR, Clarice. 1998) 

~* Como  se fazem sentir em mim:
Não gosto da conveniência/solenidade de quando abrem-se as cortinas... Prefiro a coxia mesmo! Mas ainda não sei se me (re)conheço atrás do palco, ou diante da plateia. Como eu disse: tenho mais de pecadora que de religiosa, e não estou falando de sexo, e sim de amor. É um pecado original amar, para mim... Mesmo eu não querendo ser mãe... e sem querer acabar pecando...
(HCQF, Agost-2017) 

~* Uma música para dizer (a)Deus:
- O Bilhete e o Trovão -
No silêncio, na calmaria que antecede a dor
No escuro, na pausa entre
A chuva e o primeiro trovão
Seja minha canção
Estrofe, ponte e refrão

Quando a porta recusa-se a abrir e eu bato em vão
Quando vejo de longe o trem partir
Com bilhete em minhas mãos
Seja minha canção
Estrofe, ponte e refrão

Quando o lápis resiste obedecer
E eu tento me impor
Quando o copo balança
Em minhas mãos eu temo compor
Seja minha canção
Estrofe, ponte e refrão

Seja minha canção
O primeiro trovão
Seja minha canção
Um bilhete em minhas mãos
Seja tudo o que perdi
Seja o que está por vir
(Os Arrais) 

~*Para ouvi-la:

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Círculos encobertos


ELETRO:
Círculos encobertos

Pesadelo em elo
Círculos encobertos
A olhos vistos
Engano e corrente
Espasmos
Sussurros dissidentes
São nós
Estão inteiros
São traços que derretem no travesseiro
Se esvaem
Discretos
Calorosos
De um poder desmedido
Desmentindo a fragilidade da interação
De intenção e coluna frágeis
De emoção e censura livre
Crime e compostura
Acordos em vão
Acordados pela madrugada
Que perdura ao chão
No silêncio da crueza
A alma escura
A aurora nua
Em um eletroencéfaloáudiodrama:
N-Ã-O
(HCQF, agosto 2017) 


ENCÉFALO:
Tchau Radar, A Canção

Só um rascunho
A folha está cheia deles
Riscos e palavras
Procurando um caminho

Só um caminho
A vida está cheia deles
Meu destino eu faço
Traço passo a passo

Sou um rascunho
Pelo jeito a mão tremia
Pelo jeito pretendia
Passar a limpo n'outro dia

Hoje estou só
Hoje estou cheio deles
Sou um rascunho
Procurando um caminho

Fica pra outra dia
Ser uma obra-prima
Que não fede, nem cheira
Não fode e nem sai de cima

Fica pra outra hora
Ser um cara importante
Se o que importa não importa
Não dá nada ser irrelevante

Só um rascunho
Um risco na mesa do bar
Carnaval sem samba
Outra praia, mesmo mar

Só um rascunho
Um torpedo de celular
Sem sinal na área
Sem chance de chegar

Não fica pronto nunca
Não há final feliz
Não há razão pra desespero
Ouça o que o silêncio diz

Não tem roteiro certo
Não espere um "gran finale"
Tão pouco espere, amiga
Que o meu grito se cale

Fica pra outro dia
Ser uma obra-prima
Que não fede, nem cheira
Não fode e nem sai de cima

Fica pra outra hora
Ser um cara importante
Se quem importa, não se importa
Tchau radar, vamos adiante
(Humberto Gessinger e Rodrigo Tavares)

ÁUDIO:
"Um dia desse
Num desses encontros casuais
Talvez eu diga:
- Minha amiga, pra ser sincero, prazer em vê-la! Até mais"
(Pra ser sincero - Humberto Gessinger)

DRAMA:
Por ouvir:
https://www.youtube.com/watch?v=ZKhVUfmsUkE