quinta-feira, 11 de dezembro de 2025
Desencontro com o desejo
Desde ontem não durmo...
Meus olhos esperam a visão que aguardo...
Meu corpo abate
Minha boca amargurou
Meus olhos ficaram profundos...
Senti a sede de rever.
As palavras trocadas pairavam como folhas ao vento...
Poeira e ninguém...
Tempestade à vista.
De repente escureceu
Não consegui ver
Houve desencontro de palavras
Escutei meu nervosismo
Pensei que não seria assim...
O halo escurecido em meus olhos
assombrou meu rosto
pesou sobre meu corpo...
Minha alma estava estática
mesmo o corpo caminhando...
Fugimos: você de mim, eu em você...
11 de dezembro 2025
sábado, 22 de novembro de 2025
Faz tempo que penso em escrever sobre ele... mas como ele está longe, sumiu a esperança que conduz minha pena a descrever qualquer cena fantástica entre nós, mesmo assim eu quero.
Quero e preciso dizer sobre nós...
sobre olhos que se encostam sem se tocar...
sobre como dói...
dói não ver e saber que existe.
dói pensar que não está em canto nenhum onde eu possa encontrá-lo.
sinto o seu olhar quando fecho os olhos...
quando vou àqueles lugares...
quando estou naqueles lugares, que só nós sabemos que estivemos...
um mundo inteiro que não existe, porque se completa.
Isso sou eu, tentando voltar...
pra você
pra cá
pra mim.
HCQF 22 de nov 2025
domingo, 5 de outubro de 2025
Gotas de Saturno
Mais uma madrugada sob a luz pra(n)teada
Pela primeira vez uma imagem para ninguém
Com uma das minhas músicas favoritas
De novo na minha janela, ele encontra vazio
Diz que não estava procurando nada
Quando falou comigo sobre "Silver Spring".
Às 3h da manhã a imagem dizia:
"- São amantes?
- Pior"
A resposta fazia sentido
Mas ele nem responderia...
Mais 12h depois
Responde a um coração azul
Outra playlist estranha para o além
"Mas amei você... pode agradecer"
Quem?
"Já tentei esquecer, fingir que vai mudar que com o tempo vai passar, mas é sempre igual..."
Entendo como ele quer que eu entenda: mães.
Pessoa errada.
Outra música antiga
Muito triste e bonita
Sobre nada e comida
que me lembra um bar
entre arvores, luzes de natal
e a Genesis...
Perguntei sobre se ver
Ele desconversa
Diz que não haverá perdão
Acho que entendo o que quis dizer
Me protejo
Quase 1h depois, outro ponto
Não apagou conversas anteriores
Está guardando suas faltas comigo pela saudade de outras mulheres
"Você sentiu minha falta quando estava buscando a si mesma?"
E eu só consigo escutar:
"Você se apaixonou por uma estrela cadente, uma sem cicatriz permanente?"
E corro para não ouvir de novo:
- não procurei, nem encontrei ninguém... quando você estava lá.
De volta à atmosfera com gotas de Júpiter no cabelo.
Não consigo rimar
Quando a música não é sobre mim.
hcqf 05 de outubro de 2025
domingo, 21 de setembro de 2025
Má-dona
Outro homem que imagino diferente, novas lições, que
até se cumprem, de alguma forma... Porém, de repente, o mesmo fim: me entrego,
ajudo, avalio seus complexos, aponto seus furos, me confundo com suas mães,
eles se agarram a mim e fogem.
Dessa vez pensei... Não quero ajudá-lo... Não quero me
envolver com os seus... De repente estávamos transando na varanda de uma casa
antiga, um mausoléu de família, abandonado na partida.
Deu errado... ele insista em mãe, em morte... e eu
escutando a ausência de um pai, o desinteresse por aquela herança materna,
pus-me a questionar: “o que estava enterrado ali? ”.
Morreu de sede uma iguana... alguma coisa se encerrava
naquele dia com a partida de Diana. Foram quase seis meses de desencontros:
comigo, com a terapia, com a família, muito álcool e alguns trechos de poesia
em inglês...
Depois veio o frio alemão. Uma nova parceira, à luz do
dia, no passeio público, com a família... Enterrei meu sentimento em algumas camas
diferentes. Aprendi mais um pouco sobre desgosto a dois... ouvi histórias
tristes, de separações, bares desfeitos... até que reconheci o prazer em braços
conhecidos... a mesma luz de outros dias, alguma coisa masculina-doce... Já não
fazia sentido rondar aquele desterro de antes – fugi.
Covardemente retornou, buscou minha presença, obteve
minha atenção, perdi minha distração, favorita. Voltei para a cova maldita e
desta vez tinha outra moça sufocando sem sentido.
Veio a separação, a moça se salvou, ele ressuscitou alguns
de seus mortos e apodrecendo reconquistou meu corpo.
Aos pedaços, desfez-se a cada centímetro de
aproximação. Tirei ele do escuro sem contato, da rua sem chave, das noitadas e
ressacas de segunda.... Até ele começar a conquistar algum recurso material...
No primeiro dia útil, um lençol e um travesseiro
novos... Perfume de ambiente, uma liga de cabelo vermelha, uma mulher que bebia
mais que ele, outra que deixou um tapa marcado na sua fronte. Da ressaca à
queda pela marca no rosto, veio o convite na madrugada para enxugar suas
lágrimas por não ter conseguido me deixar.
Dessa vez eu não queria voltar.... No automático o
incômodo deu vez aos desabafos e brigas... A minha hora tinha chegado e eu
apanhei vários avisos enquanto caminhava do quarto dele até a minha casa.
Ele estava dentro da casa da família... não ouvia o
que eu dizia... foi preciso um de seus amigos entregar um dos meus recados para
ele buscar outra escuta, que precisava.
Foram quase três meses para ele aceitar o meu bilhete.
Algumas noites de vícios e uma moça muito bonita e desalentada, antes de dormir
pela última vez comigo e reencontrar um abrigo.
Mais uma mulher juvenil, de cabelos escuros, inglês
fluente e uma voz de veludo. Alguém para recomeçar, outra chance para se
escolher, seu melhor personagem: o galã encantado.
Antes de ir embora, a mesma deixa para usar de álibi:
algumas declarações esfarrapadas, desculpas sem contexto, nenhuma preocupação
com meus horários, mais um pedido de “beijo de adeus” e a velha desculpa de que
me “deseja”.
Esmolas... mais uma covardia com nós duas... coisas
sobre ainda estar começando com a outra e ainda não confiar se desta vez ele
vai conseguir ceder do desejo, ou vislumbrar um caminho resignado, civil,
cidadão brasileiro.
Desses esforços bem obcecados pelo nó que segura a
gravata no pescoço e o pescoço no corpo... E desafoga o nós de tanto gozo das
chamas profundas... Um caminho silencioso para as pulsões.
Adestrado, curte alguns privilégios enraizados na
cultura que aperta, vez ou outra, o nó na garganta. Engole o choro no seio de
alguma prostituta, ou uma amiga secreta do escritório, da firma... Outra mulher
jovem como é todo desejo humano... desde o colo inesquecível do objeto idealizado...
cheirando a leite... às vez em pó...
Chorando no peito de alguma Má-dona que se interessa
por seu dinheiro, ou uma promoção, uma nota para passar...
Insatisfeito por não se sentir amado, reclama da esposa
para a família, das interesseiras para os amigos, de si mesmo na análise. Enquanto
vive aventuras desastrosas, sem orgasmo para ambos.
Não suporta ser comparado ao pai pela mulher que o
reconhece em suas frustrações amorosas - de quem foge depois de buscá-la
inúmeras vezes. O desencontro com um desses no caminho faz questionar a vida e
a morte, visto o tamanho do muro que ele se esconde de si mesmo. Sublima o
desalento em poemas e criações artísticas, tão perto do que mata o desejo,
salta o sonho em busca das chamas profundas que ardem no peito.
Ele não enxerga seus traços desonestos consigo, com as
pessoas da sua casa e da sua vida. Constrói uma morada de segunda à quinta, que
desonra nas madrugadas, ou aos fins de semana, o honrado pai de família.
Transmitindo às futuras gerações o equívoco de que
existe um objeto mágico que vai fabricar um destino seguro das censuras contra
seus impulsos. Uma coisa rígida que conserva há milhões de anos a espécie mais
imatura e dependente do planeta: o homem ressentido e a mulher reprimida.
Idealizações que criam ficções mais artificiais que as
manifestações artísticas - estas sim guardiães do real da alma e da carne.
Conscientes de pouco do seu potencial, vivem em sonhos
realidades incompreensíveis para a razão cotidiana. E encenam uma realidade
estranha aos seus verdadeiros propósitos. Por isso, chamamos de inconsciente o
que faz sentir o sentido que escondemos á luz do dia.
Feche os olhos, de novo.
sábado, 13 de setembro de 2025
Hoje minha vida tá doendo
Minhas cicatrizes devastadas
E eu nunca poderia sentir seu colo nessa hora...
Não agora que você silenciou as madrugadas
Sempre.
O que me dói vem de onde eu vim
E você enxerga isso em mim
E não me vê nos lugares que frequenta
Escutei sobre tentar se encaixar
caber na ambição do outro
Perder alguém por não se revelar
Com certeza tentei
Mas o jeito como corto a carne para me alimentar
Como o garfo está sempre na mão esquerda no jantar
Não pode ser do seu lado
Quero aceitar
Achar intolerável não ser querida
Mas porque dói tudo de mim
Dói alguma coisa que esqueceu de levar
embora.
hcqf 13 de setembro
sexta-feira, 29 de agosto de 2025
Wildiana
Conversa que nunca existiu
- Oi?
- Oi.
- Vai pra aula?
- Não
- Vou estar lá hoje.
- Legal (Não se preocupe)
- Tenho algumas novidades... rsrs
- Eu não.
- Acho que você já sabe...
Eu fico esperando alguma desculpa.
- Ah, ok.
- Foi do nada, eu precisava me organizar... Você sabe...
- É, eu imagino.
- Não fica triste...
- Tá tudo bem, só não vou pra aula por falta de tempo... mas estou adorando.
- Fica bem, espero não ter te magoado (de novo) não foi minha intenção... Você..
- Eu sabia...
- Oh, então, tchau.
E de novo ele esconde o que veio dizer.
E eu faço o que é preciso.
Vamos embora como se nada tivesse acontecido.
HCQF 29 de agosto de 2025
Meu lado E-rrante
domingo, 17 de agosto de 2025
segunda-feira, 11 de agosto de 2025
Presença que faz falta
sábado, 9 de agosto de 2025
Não aconteceu
- Por que você sai com todo mundo menos comigo?
- porque seria a primeira vez e eu não quero cometer o mesmo erro.
- mas já saímos várias vezes...
- você nunca, realmente, cumpriu um convite.
- você nunca confiou que eu poderia mudar.
- você ainda é o mesmo desde o primeiro dia.
- por isso nunca deu certo entre a gente, nem em um jantar...
- você nunca me levou para jantar...
- ah, mas já jantamos juntos várias vezes.
- eu comi porque tive fome...
- eu lhe disse que a comida era boa.
- você disse que era a última cerveja e não parou de beber e nem queria pagar.
- nossa, é isso então... só lembranças ruins.
- parece que você já esqueceu.
- eu acabei de lembrar de tudo isso.
- tudo que não existiu: encontros, jantares, etc...parece que só você estava lá, ou realmente não houve nada.
Hcqf 9 de agosto de 2025
Histórias de bolso
Realmente nunca fui suficiente...
A primeira vez que me trocou, a moça dividiria com ele um apartamento no centro, sonhos de melhorar de endereço, ficar mais perto de onde tudo acontece...
Aconteceram outras mulheres: uma da capital, outra dona de bar, a amiga separada de uma médica...
Não alguém modesto: filho pequeno, nenhuma herança, aluguel atrasado, um mestrado de lado, sem sobrenome, nenhum padrinho, um espelho exigente, muito trabalho para pagar só algumas contas, amigos só os do coração e uma família bem pequenina que cabe dentro de sonhos de cidades distantes do centro.
Contudo, sempre encontrava meu telefone na solidão da cidade grande... depois do happy hour quando não faz mais sentindo a rotina do horário comercial, a carreira brilhante e a conta corrente.
Mas ele conquistou seu maior sonho de consumo. Ela era um troféu: sem filhos, estabilidade profissional, casa própria, preocupada com o mestrado e a mãe, gostava de camarão e vinho rosa. Essa lembrava os meus traços e juventude, tão pequena quanto eu, mas tinha medo de envelhecer e decepcionar, como eu nunca tive.
Foram quase cinco... semanas sem me procurar... conheci outras companhias noturnas, um pobre amante e cumpri todos os meus prazos... até vivi um sonho inimaginável em um evento acadêmico, que me custou voltar a responder mensagens de madrugada.
Quer dizer, após quase dois meses em lua de mel com sua sereia da água doce, ele passou a enviar as mesmas mensagens de músicas perdidas nos anos 90, esquecidas em sacos de roupas sujas há algumas semanas.
Os convites também voltaram como sempre só muito depois do 5o dia do mês, quando era mais útil alguém sem grande pretensão salarial, que aceitaria a geladeira e a barriga vazia e histórias sobre coleções de pequenas derrotas, cheiro de urina e cerveja no quarto e na boca.
Eu vi começar e acabar o compromisso com a menina dos sonhos e ele passar a viver algumas semanas na companhia de um pesadelo...
Eu... agora frequentei lugares mais escuros e inóspitos do que no subúrbio. Na capital os garçons dos bares também fazem a segurança, não tem caderno e eles expulsam a chutes quem quer beber fiado.
Ele sempre estava sem capa, endividado, bêbado e carregando a perda da esposa troféu do campeonato de melhores partidos. Fui o abacaxi que ele empurrou pelas esquinas até a cama suja e fria no apartamento bem localizado, perto de tudo no centro da cidade.
Foram assim muitos dias, em quase sete meses, de muitas brigas, tapas, prateleiras de CDs quebrados, vergonha de garçons de bares antigos. Lugares que quase ninguém mais frequenta, depois dos tempos áureos dos falsos ricos de Belém e a ambição de nunca mais voltar para os conjuntos habitacionais da COHAB, ou uma cidade dormitório de mulheres trabalhadoras com sonho de deixar ao menos uma casa para os filhos.
Faz um tempo que eu não atendo os chamados noturnos, que coloco limites na minha carência... Tomo banho, passo hidratante e durmo cheirosa do lado de quem me aceita sem imaginar minhas dívidas e quanto eu tenho no banco. Acordo com meus sonhos salvos e olho nos olhos de quem vê o meu valor para além dos meus diplomas e mesmo assim acredita que ainda vou conseguir aquele desejo pequenino que escorre quando não posso realizar um pedido do meu filho.
Ele continua mandando mensagem de madrugada, "apenas como amigo", mas é sempre ele que precisa ser resgatado bêbado de madrugada, ou quer compartilhar uma música muito triste e sem sentido...
Sou eu que sou a amiga... eu que posso ajudar, salvar, mesmo sem ter garantia alguma... Alguém que não pede nada em troca como é difícil de encontrar nas grandes cidades e nas mentes afogadas no mundo capitalista.
Isso que reflete quando alguém olha para mim, não veio de agora, não. Foi plantado no quintal de uma casa caindo aos pedaços num bairro perigoso do estado mais pobre e abandonado da minha nação. Onde ninguém tinha muito, aprendi a viver todo dia esperando o tempo do jambo, da castanheira e das flores que coloriram as ruas... elas pintaram paisagens lindas nos meus sonhos e ainda agora deixo um bocado colorido os lugares por onde passo.
E de novo fui trocada, não como a amiga que sou, mas como preza desses olhos de águia... Outra mulher com estabilidade financeira, que ganha bem e tem um apartamento no centro. Mas agora como eu (e outras de suas caças) é uma mãe, o que ele justificou sobre ela na minha janela, como uma característica que nunca impediu um compromisso comigo.
Faltaram em mim outras coisas, acredito que materiais mesmo... de apalpar, de enfeitar, de mostrar nas fotos e nas reuniões de família e amigos. Diferente de alguém pequenino, espontâneo e que não faz mais sala, a outra mãe é um excelente partido com uma conta bancária, cartão de crédito, nome limpo e um filho adulto... Uma vida organizada, esperando uma ambição de mostrar para os outros viagens, shows e ganhar relógios e blusas de manga longa e um bordado no bolso.
No final, essa história é sobre esse pedaço de tecido que antes era costurado a roupa, mas hoje costurado ao corpo parece ter perdido o fundo. Nesses tempos o que importa é quanto cabe... não alguém como eu, que me preocupo com o que trago no peito e estou sempre esvaziando: a bolsa, as correntes na conta e o coração carente.
Não tenho o suficiente no bolso para ser escolhida. Não sou o suficiente para mostrar que tenho, porque escolho viver apenas com o que sou.
Hcqf 9 de agosto de 2025
Pensei (7 de agosto de 2021 - depois vejo o que é isso).
domingo, 3 de agosto de 2025
Pequenos
Tenho rebobinado um pensamento injusto contra o meu corpo: seios muito pequenos.
Tenho sofrido com esse apontamento que não me incomoda desde os meus 12 anos.
Todas as meninas comprando sutiãs lindos e eu sofrendo com as sobras de tecido com rendas.
Meus amores lapidaram, devagar, um deleite pessoal por eles... fui aprendendo a tocá-los, acariciá-los, elogiá-los, com amantes muito carinhosos.
Sabia da minha sorte, mas realmente não admitia menos do que encontrei nos cavalheiros que me tornaram mais caprichosa.
Sofri o teste da maternidade... em mim pedaços se fortaleceram, uma força me encontrou... porém um corte se refez: meu corpo é mais apontado, como quando eu era uma menina. Duas pontas que se encontraram numa vulnerabilidade por estar sem aquele aval masculino.
De repente encontro reinvenção e cores, e a menina floresce na mulher mais fortalecida pelas responsabilidades da maternidade.
Ainda não deixei para trás as marcas dessas falas e apontamentos sobre meu corpo, voltando ao bojo, que não tinha protagonismo antes.
Vejo a necessidade de constituir a proteção que aceitei vindo de fora, mas precisava vir de mim. E agora faz falta, como não me importar com a forma delicada dos seios que sustentaram meu menino nos primeiros meses de nutrição, nas noites de sonho no colo amoroso da mãe e contornam meu centro proporcionalmente ao meu corpo, ambos pequenos e doces (como sempre).
E assim, da sutileza nas cores, a voz suave, fui me constituindo de maneira discreta e simples, apenas para alguns olhares, de olhos bem carinhosos.
E que minhas companhias voltem a ser tão assim, mansas como minhas formas e proporções.
Hcqf 2 de agosto 2025
quinta-feira, 31 de julho de 2025
Carta ao cotodiano
Desvendar os ouvidos
Uma vez descobri que o Fracasso chega de mala vazia e parte com ela cheia, deixando a gente leve. Isso foi depois de vencer uma dor muito grande.
Agora vencida, lembrei de questionar a Vitória que chegou com uma enorme bagagem e partiu sem nada. Ficou tudo para trás.
Então, descobri que é mais fácil esquecer o que se ganha, do que o perdido.
Lembrei que ilusão e desilusão quer dizer a mesma coisa em momentos diferentes. Ilusão é quando ainda não passou, já a desilusão é quando nada restou. Então, desiludidos somos capazes de ver tudo que (h)ouve e desvendar o ouvido.
De tudo se recupera quase nada e ao final isso é o que permite leveza para chegar mais longe, sem tanto peso no coração.
Hcqf 31 de julho de 2025
domingo, 27 de julho de 2025
Piegas
Ele usa o vocativo, "baby", para criar uma atmosfera falsa...
Não me serve mais!
Como refrães piegas das bandas decadentes que escutei na esquina de um banheiro público na via arterial de uma pequena vila querendo ser uma grande cidade.
Hcqf 25 de julho de 2025
Her-story
Muitas vezes, isso porque é mais do que deveria, espero muito para me retirar/partir... Até talvez na realidade espere, mesmo, ser retirada e partida enceno uma vida.
Não "Impávida como Morramad Ali" - ocorre-me essa lembrança em canção - porém passiva, covarde e constrangida como uma personagem desnecessária, cuja função é confundir o interlocutor para que desfocado chegue ao clímax preparado para emoções intensas, um posicionamento acerca do horizonte e blá-blá-blá. Blasé, clichê e démodé - o mais perto da França que cheguei.
Alguém substituível. Nem dispensável, nem central... Aleatória... como se o criador estivesse distraído o suficiente para deslizar fantasia e criatividade, irresponsavelmente, por alguns momentos da trama. Tal que distrai o leitor e desloca a atenção do que realmente importa: vivenciar.
Quer dizer, por algum tempo, na minha própria vida, desvio dos meus medos e de qualquer responsabilidade, para gastar vida com o que me engata e desgasta. Saio cansada dessa rota sem sentido e demoro algum tempo para saber onde estou, se na minha história ou em uma ilusão de alguém, já que nem os parâmetros, músicas, livros, que adoto são meus.
Já chamei isso de paixão, declarei ser adepta desse vício em desgaste... mas alguns anos diante dos meus sonhos e confrontada pelos meus medos, achei que um recuo desse de vida já não me serviria.
Um sofrimento desmedido pelo quanto perco de energia vital nessas tramas sem futuro.
Lembro de um caso ocorrido com um companheiro de travessia, na clínica: a paixão por uma protagonista que lhe custou o vilão dos seus sonhos.
Vou devagar mais um pouco... porque essa história é muito interessante...
Ele vinha de alguns papéis de mocinhos, galãs e por isso almejava conquistar um antagonista, que ele acreditava ser um grande desafio, visto sua experiência com "bons moços". Apaixonou-se pela heroína, que tinha um caso lascivo com o principal vilão. Estava ali sua fantasia materializada: tomar sua amada diante do público, tal como não fora possível na realidade.
É preciso esclarecer que eles tinham um relacionamento, porém sem consumação sexual. Existia toda uma atmosfera de pureza devotada àquela moça, que não condizia com a sua personagem na peça, mas que se cumpria em atos mesmo diante de beijos intensos e ativadores do sistema nervoso parasimpatico e límbico do rapaz.
No entanto, após alguns testes, o diretor designa que ele estava pronto para um desafio importante na dramaturgia: a comédia. Arte complexa, a caçula das filhas da poética, a qual também desponta na cultura clássica como um gênero grego sofisticadíssimo, sendo o fruto mais distante da sombra da árvore: se é difícil o limite entre o humor e a tragédia, é ainda mais difícil rimar diante das tristezas e perdas. Talvez seja o nascimento da prosa.
Cego para a oportunidade que se colou a sua frente, aparece em cena a imaturidade daquele ator infante. Na realidade estava na companhia algo em torno de dois anos, talvez incompletos, e o responsável pelo grupo havia criado o ambiente perfeito para avaliar seus ganhos profissionais até ali. Vendo-o apaixonado, talvez quisesse ver até onde ele conseguiria separar a atuação da vida real, pois quase sempre desenvolvia um romance com suas colegas de elenco.
Deu-se a tão temida reprovação: ele aceitou muito contrariado o papel cômico e uma caracterização indispensável de mudar sua aparência pintando o cabelo. Nada deu certo, naquele semestre o rapaz saiu de outros trabalhos que vinha fazendo desde que entrou no grupo, mas por convicção de que precisava repensar sua vida (no teatro), pelo que achava ser uma escolha equivocada do diretor em colocá-lo no papel errado.
Com tudo, na vida pessoal, o relacionamento com a protagonista já vinha dando sinais de desgaste: encontros curtos, muito mais ao acaso, além de muitas negativas da moça.
Tomado muito mais pelo entorno, do que pelas demandas de sua vida e exigências de trabalho, o ator encena desmotivado e desacredita de seu talento. Perde outras oportunidades de testar sua competência e prefere tirar férias, o que já não fazia desde a entrada na companhia. Nesse momento também abre mão da análise, por quase 8 meses.
O Deus do Teatro não poupa seus filhos, tal como seu pai não o fez. Todavia, um teste não desqualifica para a vida, apesar de reprovar para uma determinada posição. O que pode ter as mais variadas consequências - desde onde não se deve estar, ou de onde partir, até para onde ir...
Viver não é atuar, vamos para a vida com todos os nossos sentimentos, mas em meio a um cenário fantasístico precisamos desenvolver mecanismos de proteção, armas e estratégias para confrontar medos e até paixões diante de obstáculos que nos impomos para não nos responsabilizamos pelo que desejamos.
Nosso protagonista, assim que pôde, imediatamente retirou a tinta do cabelo, refez um semblante mais sensato e voltou das férias ao consultório meses depois do retorno das aulas na companhia de teatro. Desta vez não trouxe nenhuma nova empreitada cênica, apenas suas questões antigas com as quais nos defrontamos algumas vezes.
E é isso que quis encenar... tenho alguns pontos deixados de lado ao longo dessa temporada de vítima desse grande vilão. E até questões bem antigas se reafirmando após esse período longo de deslocamento e fixação de energia vital em uma pedra do caminho.
É bem isso, passei anestesiada a maior parte de um objetivo que nem me atrevi sonhar... agora dentro de um sonho, preciso acordar para sentir algo do que fiz para conquistá-lo e ainda preciso fortalecer para construí-lo.
Velhos questionamentos, os mesmos conflitos sobre merecimento, autoestima, inveja... alguns personagens repetidos... a rivalidade feminina... e o desamparo que me castrou pequenina, mas não amputou meu órgão de sonhar: a mente. Tenho muito trabalho, mas preciso de um guia para não perder de vista a minha forma de avistar: amo escrever.
Hcqf 27 de julho 2025 - as férias acabaram.
domingo, 20 de julho de 2025
Each other
Eu nunca te olhei com cobiça... E na verdade nunca (nem) vi algo de que verdadeiramente pudesse me acrescentar... Sempre foi com generosidade, vontade de ver crescer...
Muito se perdeu, e foi cedo que percebi a sua altivez diminuir... sua altura é de cumprimento, falta alguma coisa, um "delicado essencial" talvez... algo de se cumprir um desejo de ser... você fica na metade do caminho...
Não consigo explicar.
Tão educado, tão sábio, tão intenso e com pouco... nada.
A educação é de "malandro de bar", de quem tenta dar pequenos golpes em garçons, que é banido de bares sem pagar a conta...
A sabedoria se esvai... suspende o raciocínio e aposta na mentira... decepciona até por não conseguir firmar essa tentativa... é pego e desmorona...
A intensidade parece pó ao vento... de repente uma carreira longa, em pouco tempo uma penumbra no ar... e logo mais, nada.
A etiqueta de um pobre bêbado, a astúcia de um charlatão incompetente e o fulgor de um homem cansado... ao contrário de tudo que mostra, mas faz-se em atos.
Um episódio ridículo entre três jovens demonstra. A mais independente - após fuga do cativeiro de mais de 10 anos - humilha sua recente conquista profissional: "ele contou vantagem, saiu pedindo e não queria pagar a pizza".
Você diz que já esperava que eu me sabotasse na vida pessoal, ao dizer que o último lance demonstrava falta de postura profissional. E não reparo que a ofensa é maior do que percebo: você realmente demonstra que não me admira no que se refere a como me cuido, me protejo, escolho meus desafios... E se vale disso para me manter cativa.
A postura infantil com coisa de trabalho é bem mais ridícula de explicar que a tal da sabotagem na vida amorosa (que com você nunca existiu): como uma saída pós-festa às 1h tem a ver com trabalho?
Se você costuma ter reuniões de trabalho após beber e com garotas que você tem relações furtivas depois do horário comercial... realmente existe um problema quanto a postura profissional, mas não da minha parte.
São tantas camadas de erros, mas um ainda precisa ser esmiuçado, pois é o motivo de todo o deslocamento até chegar nele: o fracasso sexual.
Você achou que estava conquistando uma nova parceira sexual, quando na verdade a moça confrontou sua mesquinharia financeira, deixou à mostra sua renda ainda insuficiente para seus luxos, desqualificou o produto que tentou vender para ela, ganhou uma humilhação da pessoa com quem queria se satisfazer.
Nessa noite, com certeza, você não iria conseguir ter uma performance sexual eficiente, quanto mais intensa... rsrs
Sua educação alemã não fez qualquer diferença diante de uma comanda de pizza média diante de uma mulher independente financeiramente...
Nesse momento recordo seu canto, a plenos pulmões, para impressionar a moça com seu inglês, seu estilo musical e sua banda de rock... E tudo desmoronando por você não ter se colocado à disposição para pagar a conta.
Agora entendo o seu gosto para mulheres, sua ex também desaprovaria a insinuação para ela pagar a comida e você a bebida. Pode até ter acontecido, vezes suficientes para ela terminar. De alguma forma entendi tudo: eu já sabia que não te exigia nada e ainda entendi que a questão é financeira, realmente.
Você diz que é um potencial de ser, você tá falando de dinheiro. Que vai se concentrar para ter, mas vai perder tudo em prazeres vis. Ela percebeu isso, eu não me importava, porque tentaria não te ver chegar aí - na futilidade dos vícios ou na ambição desmedida, qualquer uma, ou ambas.
No entanto, isso implica tanta coisa que talvez você não devesse mesmo abrir mão: como sua máscara de sedutor barato que não faz jus a magnitude de seu apetite sexual; ou deixar de querer ser influente para com humildade chegar talvez um dia a ser uma referência; ou ainda ter coragem de ter pouco, parecer com isso que você é, para pisar no chão e impulsionar voo. Coisas que nem importam tanto no mundo capitalista, para o qual você está (des)preparado e eu não tenho munição.
É triste ver um potencial perdido, contudo não ver potencial em alguém é ainda pior. E é isso o que enxergamos quando estamos perto um do outro.
Hcqf 21 de julho de 2025
quinta-feira, 17 de julho de 2025
Crônica cotidiana nada convencional
Em meio a rotina e suas trivialidades, o ônibus passando diante de um estabelecimento para fins recreativos sexuais, trouxe uma reflexão despretensiosa, porém curiosa: por que voltar ao mesmo lugar?
Bem, isso aconteceu, porque na saída do motel tinha uma inscrição luminosa - qualidade não avistada naquela hora da tarde com o sol à pino em Belém do Pará - que dizia: Voltem sempre.
A obviedade da indicação trouxe, primeiramente, risos e algumas memórias furtivas. No entanto, o letreiro mostrava algo da ordem do mais que esperado, isto é, do almejado intensamente após uma estadia em um quarto daqueles, na grande maioria das vezes.
Posto que, para estar em um encontro sexual - casual ou não, a qualquer hora do dia - é necessário antes ter planejado parte das tarefas e economias, além de algum impedimento moral a fim de que a ética da satisfação se estabeleça - entre outros critérios, especialmente, o consentimento - com o vigor das demandas em jogo.
Bem, assim sendo, querer retornar para aqueles momentos acompanha a rotina ainda por alguns dias/meses após o acontecido. E é de um mérito muito restrito conquistar certa frequência em futilidades tão gostosas como relações íntimas em um espaço especificamente arquitetado para esse fim.
Logo, "voltar sempre", não se faz mais apenas presencialmente, mas em devaneios dioturnos e muitas vezes inconclusivos, permitindo que a lasciva vontade se reinscreva em fantasias dias e mais dias à fio...
Tamanha obviedade e coerência na chamada, tomou minha tarde de risos e reflexões divertidas ao alcance de algumas lembranças não tão recentes quanto se gostaria.
E eu, que nunca fui àquele lugar, tomei para mim aquela convocação de "volte sempre" a buscar prazer na/pela vida.
Hcqf 17 de julho de 2025
En-canto de liberdade
terça-feira, 15 de julho de 2025
Conversa sem destino
Diz a solidão:
- Vamos?
A saudade responde:
- Você não tem quem levar? E eu, será que tenho porque ir?
- Esse momento é nosso.
- Não, ele é sobre Você.
- Você está resistindo...
- Bravamente, espero.
- Dê-nos uma chance...
- Mais uma? Quantas mais serão ainda necessárias?
- Todas que tiver para mim...
- Tantas e tantas que já se gastaram em finais lamentáveis. Por que de novo? Por que comigo?
- Você não quer?
- Você não quer.
Hcqf 14 de julho de 2025
domingo, 13 de julho de 2025
The cure without dreams of heaven
terça-feira, 8 de julho de 2025
Achismos
Acho que alguém muito elogiado sente falta de sinceridade...
E, talvez, a pessoa quando muito criticada se sinta hipervigiada, ou pelo contrário, até admirada.
Quem é muito generoso precisa conviver com pessoas independentes.
E quem é muito acolhedor, talvez necessite de colo.
Tal como ser amado supõe sossego, mas exige mais cuidado com o outro,
Da mesma forma que amar requer autoproteção.
A paixão esquenta uma vida fria e a amizade os corações partidos.
Tal que amor é coisa de gente com tempo para futilidades e que dão muito valor ao repouso, descanso...
O amar exige certa experiência com inutilidades, brincadeiras, gosto por perda de tempo...
Daí uma grande crueldade capitalista: não permitir pausa, sono, descanso, brincadeiras bobas, preguiça e tudo que entrecorta as carícias depois de um dia cheio e os problemas da vida adulta.
Assim como o que é aponta para o que não está, e o que falta deixa evidências do que esteve, ainda que em promessa, ou sonho, ou expectativa.
Hcqf 9 julho de 2025
segunda-feira, 7 de julho de 2025
quinta-feira, 3 de julho de 2025
(Te)screver
Hoje cedo comecei um poema, mas não o conclui... como encerrar uma conversa com quem não está mais?
Agora, tão tarde, já quase não lembro o que disse... mas sei que tentei representar a tua ausência em mim... talvez por isso faça sentido não conseguir.
Dizer para quem não pode ouvir... Escrever sem poder remeter...
Queria... diria... faria... parece que a saudade criou o futuro do pretérito, isto é, isso que confunde a lógica ligando dois tempos inexistentes: o passado e o amanhã...
Nem aqui, nem agora, os advérbios também referem ao que não aconteceu, já que se vier ainda virá, mas só depois...
E só se vier, isto é, talvez... modo e condicionalidade organizam um muro a ser transposto, ou não acontecerá...
Diante da perspectiva do improvável... em língua brasileira... correspondo ao dialeto anglofônico que cercava nossos encontros... marcando nossa "broken communication".
Enquanto escrevo, fugindo das palavras da manhã, sentindo remorsos no centro do corpo, faço uso de palavras sem sentido, para sentir...
E também não consigo terminar o que tentei (te)screver...
Hcqf 4 de julho de 2025
quarta-feira, 25 de junho de 2025
Ghosting
quinta-feira, 29 de maio de 2025
Advertência para um coração rejeitado
terça-feira, 27 de maio de 2025
Dois jovens distraindo a chuva
Um casal de homens se beijando em uma estação de ônibus trouxe a lembrança do que não tenho.
Eles se tocavam com suave intimidade até que veio uma cortina, bem forte, trazendo vento frio e água gelada, empurrando os dois amantes para longe dos olhos preconceituosos e/ou saudosos da gente que se escondia da chuva e, de alguma forma, da solidão de não ser aquelas duas almas.
Eram jovens e despretensiosos como suas caricias... não se sabe do quanto puderam ser mais íntimos ou tolos não estando mais vigiados pelos olhos famintos.
Um enlace pela nuca e um beijinho bem rápido abriu um espaço entre aquele pequeno mundo de dois e todos que os invejávamos.
Fomos levados, devagarinho, à nudez daquele momento. Cada um, sozinho mesmo, estava com calor por estarmos vestidos. Queimamos no inferno dos segundos de solidão, enquanto dois anjos desnudos sentiam o doce vento do paraíso. Paradoxalmente, lembrei de Amy Winehouse em "Tears dry on way own" em que canta: "o céu é uma chama que só os amantes podem ver".
Estive a admirá-los, ainda que não pudesse defender a dignidade do seu encontro. Não queria que nada atrapalhasse, mesmo sabendo que talvez Barulho, Vento e Chuva fossem seus coadjuvantes naquela noite.
E eu, uma simples escritora, tímida diante de uma cena amorosa cotidiana como há muito não experimento... eu procurei na memória alguma última lembrança de um toque assim tão profundo... por não encontrar gastei a pena solitária e distraída a contar o que em fantasia foi sentido.
Hcqf 27 de maio de 2025 - dia de Roberto
sábado, 24 de maio de 2025
sexta-feira, 16 de maio de 2025
Para o Amor que se foi
Eu queria abraçar o Amor
E faltar braço para fechar o laço
Queria destruir a distância
Entre as cidades
E dormir todo dia no seu colo
Adoro o cheiro da barba
A cama que dorme
A estante de livros
A montanha de CDs
As blusas quadriculadas
E as camisas de bandas desconhecidas
Mas o Amor não tem um poema sobre mim
E eu tive que destrancar o cadeado
Na ponte que fantasiei visitar com ele
Fomos embora de madrugada
Ele e um bocado de mim
Vou me procurar pela vida à fora
Ainda que espere encontrá-lo
Hcqf 15 de maio de 2025
domingo, 4 de maio de 2025
Ele se foi
Por que dói quando alguém que não nos ama vai embora?
Tem a resposta pronta de que é o sentimento em nós que demanda e angustia...
Mas pensei se não há algo sobre nutrir fracassos afetivos, como amor por cadáveres, hipóteses... e tudo o mais que justifica nosso medo de conquistar relações reais, alimentar reciprocidade...
E na vida real o vilão sempre se dá bem: recomeça, cresce na vida... Mas quem realmente sofre as consequências dos dias sofridos: sobe devagar a escada e aprende a nutrir solidão, autores complexos e amizades verdadeiras.
Estou no lado B do disco: sem grandes expectativas, guardando algum tesouro para ouvidos muito gentis e cuidadosos...
Não quero mais madrugadas sombrias e amizades com garçons, donos de bares e histórias muito desencantadas sobre a vida...
Até que enfim ele se foi, de novo, mas talvez pela primeira vez.
Hcqf 04 de maio de 2025
Desconectados
Sinto/sei que a ligação era só um teste para saber sobre algum impedimento.. não uma tentativa de comunicação...
sábado, 3 de maio de 2025
Permissiva
03 de maio
Ele que me ligou...
Inclusive pela segunda/terceira vez de noite
Mas ele quem desliga
Como sempre.
Não há o que esconder
Ele diz o que veio fazer
E deixa o rastro do que roubou
Novamente.
Sempre perco pedaços
Não sou boa o suficiente
Tenho milhares de defeitos
Me falta tato, me falta jeito
Sou um monte de escombros
Ainda não estou acabada
Ou ainda não fui finalizada...
Parece que é isso:
Minha consciência à espera de um nocaute
Falta muito para estar totalmente pronta
Para ele
Para a sua vida
À convivência com a sua família.
Sou ingênua demais pra saber tratar um monstro como ele precisa
Doce demais para agradar um paladar sofisticado
Muito pequena para estar do lado de um grande homem e seus privilégios
Mesmo que eu esteja envolvida, ainda que não devotada, à educação de um menino
Que eu desejo superior aos meus diplomas de faculdade
Ele disse: "todo mundo se aproxima por algum interesse..." e repete: " todo, todo, todo mundo..."
E eu escuto: "você também tem um interesse em relação à mim..."
E embora a minha cognição prejudicada, consigo alcançá-lo mais à frente: "a cada dia perco mais o interesse em você."
Está se construindo a porta da partida
Quando diz o que (não) sente
Hcqf 03 de maio (uma rua depois da sua casa e onde a minha família se abrigou vindo do interior) de 2025
domingo, 27 de abril de 2025
A-voz favorita
É só o conteúdo que fala de amor, quando o continente não esta tomado.
E depois desses dias... ainda em guerra com meu temperamento, preciso ver teu nome no alto da página, enquanto endereço afetos da veia em escrita....
Desculpa, desculpa e desculpa se eu transbordar é a mais indolente saudade.
Preciso confessar: odeio quando tratamos de veleidades externas - política, cultura geral, epistemologia, ou mesmo os clássicos da filosofia, os cânones da literatura, as obras-primas da música... Dentre essas maiores riquezas do mundo, o que mais desejo é fazer parte da trivialidade como quando falta água, você perde a carona de volta para casa e eu durmo com muita saudade - como se fossemos dividir o mesmo lençol na madrugada.
Diz a música clichê da minha adolescência: "eu tenho inveja do vento que te toca...". Eu morro de inveja todo exato momento que descubro que qualquer pessoa têm de ti o que não seja brilhante e admirável... pois é isso que encontro nas noites insones que dividimos, porque qualquer um se apaixona por uma estátua ou uma imagem retocada, mas apenas o amor é capaz de sorrir de manhã com fome, antes de um banho, ou um copo d'água... eu fui e sou!
Me perdoa o português, "mal dito", e a confissão, mas os meus maiores tesouros que queria guardar, e mesmo agora, escorrem pela memória à fora (se foram), mas estão num ralho de pai no quarto azul-esverdeado - que me atingiu uma mecha de cabelo; o dia que limpei da sua barba o catchup, enquanto você me dobrou pela primeira de muitas vezes; no mesmo dia que me apresentou sua mãe sem nunca conhecer sua família - tinha uma casa com a vista dos sonhos na varanda, que me levou à praia no meio da urbanidade, me lembrou água mesmo no concreto e eu tirei folga tendo uma reunião de trabalho... Noutro dia depois de algumas dessas lembranças, no segundo bar na mesma noite, um sumiço no banheiro, uma carona desastrada num carro de aplicativo, tudo isso fez parecer que se escreve os destinos a lápis e algumas vezes a ponta quebra e continua com o dedo a brincar com os personagens - naquele dia fomos um filme do Adam Sandler (desculpa o repertório cinematográfico de repetente).
Tem uma lembrança que eu acho engraçada, mas também é triste: você chora como se estivesse gripado, limpa a lágrima muito rápido e esfrega o nariz cortando o choro e ficando vermelho. Toda vez nessa hora eu tenho vontade de te beijar e ficar beijando para você não conseguir impedir as lágrimas de caírem - esse é o destino de ser delas, atravessar dos olhos até molhar o peito e voltar ao útero...
As tantas mulheres, nenhuma me incomoda mais do que as amigas, porque elas são testemunhas de quem é o Bruce, elas são o Alfred: elas te encontram a luz do dia, curam as feridas, eu só vejo as cicatrizes; elas sabem que você sangra, que não é sobrenatural, que não tem um superpoder (além da inteligência e perspicácia), que o dinheiro é a matéria-prima da capa e os acessórios que você USA, mas se pudesse trocaria uma casa enorme em um condomínio no bairro nobre, qualquer herança do sobrenome paterno, por um tempo olhando os olhos, admirando as mãos que te acalantaram e escreveram um livro ao longo dos dias nos quais esteve contigo, para assim ver de perto a boca e escutar cada palavra na voz inesquecível que seu ouvido absoluto busca nas melhores músicas do mundo. Ver o corpo da sua mãe pela última vez.
Escrever, ler, escutar música tudo isso é sobre colo, mas sem Ela é sobre Você... eu sei que trocaria de sobrenome e até o primeiro nome, ou de endereço, caso fosse para reencontrar a mulher que mais te amou antes e depois da vida e vai dar nome a sua futura cantora favorita.
Tem outras histórias engraçadas e constrangedoras, que são as que eu mais gosto, pois foram os dias que me senti menos por fora, mais amiga, mais íntima que quando a gente namora na cama.
Uma única vez, para sempre, encontrei nos versos de Antonio Cicero um poema não sobre GUARDAR, mas sobre medo de ESQUECER e na mesma hora escuto o sentido de PERDER... e só então chego ao trecho sobre publicar... E assim me tomou esse sentido...
Quer dizer: nós vamos perder as cosias mesmo depois de olhá-las, fitá-las, iluminá-las e sermos iluminados por elas... é a presteza do sonho dar sentido ao escuro, sonhar com o que ficou guardado do amor e acordar para amar um reencontro em cada pequeno pedaço que restou. É o que chamamos de memória: os restos mortais de quem ainda vive pensamento à fora.
Dá pra entender tamanha dor, não é? Como conseguir estar acordado sem esses guardados para existir com amor?
Não posso mensurar o que sente um poeta, sou feita de carne e memória dolorida, fiz disso meu ninho despedaçado, que costurei/teci/narrei pedaço-a-pedaço com a linha(gem) da minha avó(z) materna (de mãe e de pai) e literatura.
De uma sempre saudade de alguém,
Hcqf 29 de abril de 2025
sábado, 26 de abril de 2025
Perdi a fome...
Perdi minha fome, novamente.
Procuro por ela entre o dia e as tardes, entre textos e poemas feridos de morte, desidratados e famintos de amor, enquanto sofro desenganada por um vampiro que não me mata, para consumir das minhas veias o doce vinho regado a cuidado, amizades muito fortes e amores bonitos.
Busco por ela escrevendo as linhas mais tristes que sooam de mim... uma música de versos impuros, mal-cheirosos, como o vômito de um homem gordo a beber por horas, sem se alimentar diante de um dono falido num bar sem futuro, a quem ele roga amizade e prestígio.
Minha fome tão negligenciada parece que se escondeu atrás de tanta mentira, tanta falta de cuidado, tanto desperdício de tempo...
Depois de uma crise de choro enorme, de vomitar derrotas na lixeira humana mais sórdida que já encontrei pelas ruas sujas da cidade nova...
A fome não foi embora, eu a perdi, está escondida nos escombros dessa conversa sem fio, um paradiálogo desprezível que me atormenta os compromissos, os sonhos, a playlist, a família...
Sei que é o sinal para correr sem olhar para trás... desviar o olhar, não olhar para baixo, firmar os passos e temendo cair, depois de ter arrebentado o joelho, não parar até encontrar alguém com alma.
Vago em pensamentos que me torturam com um ciúme sem sentido de alguém desaparecido há anos da minha vida...
Ele já me disse que me suga, já me puxou com força, já me segurou dentro de um carro com as pernas para fora, já jogou fora tudo que deixei com ele...
Quero perdê-lo de uma vez.
Es o nosso último encontro... ele fala de filho e fantasias incestuosas, fala de sexo e nunca de amor... Ele me reencontrou no topo e me puxou, com toda a força para baixo.
Já fui de madrugada pagar cerveja, que ele não tomou, num bar frequentado por putas e traficantes - porque ele não se importa por obde vago, se me arrisco...
Fui a uma festa dos seus amigos para pagar a conta do próximo bar e só sai depois de sermos expulsos, para a casa desarrumada e suja depois de pagar a conta, novamente, por nosso deslocamento.
Ele conta que tinha marcado com mais de uma mulher, porque eu desmarquei; mas desmarca comigo sem me avisar para ver a amiga amada de anos de cumplicidade, com quem tem planos de fazer academia, um hotel para receber estrangeiros, uma vida com dinheiro - uma mulher linda que gosta do seu estilo alto e rockeiro.
Sabe, preciso ir...
Aqui experimento o inferno na vida-morte...
Durmo e acordo preocupada com o dia que ele não vai mais me arrastar a peso de mentiras para sua companhia - sem banho, sem dinheiro, sem sonhos, sem noites bem dormidas.
Eu desejo sair daqui...
Tenho coisas importantes para fazer e estou amarrada pelo pescoço, preste a pular no meio dessa casa sombria, cheia de discos, livros e mentiras.
Hoje eu quero morrer por conta desse breu horrendo que me afoga no seu corpo, mole, inodoro, corrupto, sem perfume e sem poesia.
Isso porque perdi a esperança de encontrar o amor, depois de tantas noites sentindo gosto de cerveja barata, xixi e suor... buscando um olhar num rosto sem olhos e procurando um toque de lábios numa boca desgostosa.
E isso está acontecendo há dois anos e meio, initerruptamente.
Hcqf 26 de abril de 2025
quinta-feira, 24 de abril de 2025
A escrita me acolheu, diante do indispensável... talvez hoje seja o dia, que ele irá recebe-lá onde mora.
Mesmo sabendo que ele quer de si o melhor para ela, por isso o futuro... sinto/sei que pode acontecer dela aceita-lo do seu jeito... foi o que eu fiz e não fui a única, nunca seria.
Ela alva como suas musas, magra como suas fantasias, madura como nos seus sonhos, ruiva como as cantoras que admira.
Mais uma outra mulher...
A questão em mim é que a repetição sou eu, o excesso sou eu, o que precisa ser escondido, retirado, desfeito está em mim...
Preciso escapar dessa falta comigo... dessa luta por nada...
Faz tempo que não somos mais o que já fomos... seria bom se não fosse outro fim...
A voz serena, o pouco álcool, a risada sem graça e eu sei, a figurinha jamais seria compartilhada se eu não estivesse ali, implorando a presença dele.
Deixa ir...
Hcqf 24 de abril de 2025
Eu sou menos complexa que a histeria freudiana...
Não dá para conversar diante de uma pilha de livros...
Não sei o que fiz, enquanto estava na sua cama...
Com certeza estava sozinha, como quando sentada em uma biblioteca com o livro aberto escuto o fantasma e vislumbro a morte do autor.
Hcqf 24 de abril de 2025
Um sonho de porta aberta
Sempre pensei que um dia a corda ia arrebentar...
Ia ser da parte dele, só poderia...
Ia chover como "nos campos de Cachoeira" em Belém ou Ananindeuano Pará...
Ia doer muito, muito e demais...
Nunca imaginei que eu estaria lúcida no dia... Algum tanto de álcool existiria para ser totalmente coerente, sabe?
Não pensei que o céu estaria limpo e fosse quase festejo junino... quase tempo de quadrilha... quase o famoso dia do balão de coração vermelho ("dos seus olhos... ", diz a canção).
Não, não mesmo, que eu me retiraria sem pretensão... alguma tácita pergunta, costumeiramente, mal respondida...
Ele, alguém, ninguém e minhas inquietações... todo mundo lá... menos a esperança, morta, pela última/única vez...
Por mais que minha previsão se perca... que ele não tenha mais esse outro alguém, não quero mais esse trisal - ele, a madrugada e eu.
Ele sempre beijando a minha sombra, quando na realidade, eu sou a própria sobra que ele esconde no escuro pela madrugada, nas ruas que ele sabe que não deve frequentar...
Lugares escuros pelos quais vago, correndo perigo, para ser escondida atrás de outra mulher...
Mulheres mais elegantes, mais sérias... com quem ele troca confidencias e assuntos sobre o cotidiano (mesmo falando comigo em meio ao trabalho), sobre futuro (o que nunca me ofereceu, de fato), sobre viver melhor (guardando para mim a convivência com seus piores vícios amorosos, sexuais, comportamentais...).
Quero ir embora desse lugar, onde eu experimento meus piores pesadelos, no qual enceno papéis desagradáveis e constrangedores...
Deitando em camas desarrumados que não merecem sequer um lençol diante do sereno que atinge meu corpo pequeno, magro e sem saúde...
Sinto frio, vergonha, me sinto suja e quase sempre choro no vazio que me aguarda quando ele vira pro lado e simplesmente morre/dorme....
Já saí desse lugar, várias vezes, sem ser notada. As vezes são dias, meses, nunca menos que horas para chegar a primeira notificação de vida... exatamente assim, como se eu nunca tivesse estado lá.
E é assim, exatamente assim, que acontece a partida... como passar na frente de uma casa muito bonita... olhar pela janela e ver a ceia na sala de jantar... sentir vontade de comer algo na mesa... passar pela porta, entreaberta, e ficar com esse desejo (fome/home, sede, perfume) guardado bem fundo, enquanto atravessa a rua para pegar o ônibus lotado e voltar pra própria vida e suas preocupações, obrigações, mas também sonhos...
Eu venho construindo essa casa com o amor da minha vida e procuro alguém que construa a porta capaz de proteger nossos sonhos e encerrar essa espera.
Hcqf 24 de abril de 2025 - depois da Páscoa
quarta-feira, 16 de abril de 2025
-o que aconteceu?
- nada (como sempre).
- como assim? Não estão se falando?
- como sempre.
- mas o que é isso?
- é um jeito de dar errado rsrs.
- ah, então?
- nada.
- E o que houve naquele tempo?
- oportunidade e só.
- mas oportunidade pra o quê?
- pra fugir da rotina, dos pensamentos...
- aaah, amizade, é isso?
- menos que isso.
- Nossa, muito difícil de entender.
- de digerir também.
- que pena!
Hcqf 16 abril de 2025
sábado, 5 de abril de 2025
Landeslide
Eu queria ele pra mim
Quis muito
Quis sim
Queria ele e seus problemas
Suas dores
Seus defeitos
Tive uma coragem desproporcional para ser intima de muito sofrimento
Recebi humilhação e vergonha
E mesmo alerta dos prejuízos de se fazer remédio... corri direto pro nada.
Acabou... comigo.
Destruiu tudo.
Nao sei mais o que é amor.
Hcqf 05 de abril de 2025
terça-feira, 1 de abril de 2025
terça-feira, 25 de março de 2025
Incubus
Eu preciso admitir...
Eu gosto do tamanho dele...
Eu gosto da textura da pele dele
E de passar os dedos dentro da sua barba.
Eu gosto quando ele exige beijo
Quando ele pede fogo
Quando ele me olha e não diz nada
E eu enquadro seu rosto todo
E fotografo meu ponto fraco.
Hcqf 26 de março de 2025
sábado, 22 de março de 2025
- pra que ser dois?
- para não ser apenas um.
- mas agora estou sendo o "um" que eu quero e podendo ser melhor para mim
- isso, o melhor só pra si mesmo.
- mas pra que dividir uma vida que ainda não esta em todo o seu potencial?
- talvez para ampliar esse potencial e não encerrar tão cedo.
Hcqf 21 de março 2025
Me emprestei para você e não estou conseguindo me ter de volta...
Qual objeto que se oferece para alguém sem saber se a pessoa realmente quer, aí a coisa fica em algum canto desinteressante e não frequentado ao ponto de perder de vista...
Quem emprestou corre o risco real de não reaver o empréstimo, afinal: "o que foi mesmo que você me deu?"
Mas não foi dado.
Emprestei meu lar para você não esquecer que herdou uma casa da sua amada mãe.
Emprestei minha escuta e discernimento para você lembrar de si mesmo, ao menos, quando estivesse comigo.
E você me disse que estava numa epifânia sem remédio, tendo insights sobre si e sobre o seu melhor, agora, sendo "um", inteiro... se sentindo autosuficiente e seguro, sozinho, mesmo eu emprestando horas das negociações das minhas folgas com a minha vida, para que você estivesse comigo.
"Mas para que dividir seu momento com alguém?", Você me pergunta, pretensiosamente, como se perguntasse a um espelho - coisa inanimada, objeto reflexivo, onde você reflete seus piores sentimentos - local esquecido e empoeirado com os dizeres: "se cuida!"
Emprestei meu jeito de amar para você assumir que ama outra pessoa e reza psra ela voltar. E eu, devota das causas impossiveis, respeito sua presse e dispenso meus serviços, como a babá Mcpheer e sua verruga desaparecendo por você ter aprendido a acreditar em mágica.
Adeus!
Hcqf 22 de março 2025
segunda-feira, 17 de março de 2025
Uma mulher na casa dos homens
Você me diz que a viu em um espaço público e não tirou os olhos dela... Meses depois, conversaram virtualmente algum tempo e enquanto você a conhecia pensava: "eu namoraria essa menina"... Isso ao longo dos mesmos dias que usava minha janela para encontros sem nenhum sentido.
Você me disse que foi difícil conseguir um primeiro beijo, na mesma hora entendi o quanto despreza meu jeito dócil, feito um filhote, de buscar e te dar meu desejo e meu sexo.
Desde a primeira saída o registro, o respeito, a conversa... tudo era sobre a dádiva de ter encontrado a pessoa certa, que mesmo antes no lugar errado já sabia que existia "o seu bar" no lugar para vocês começarem...
Aliás, esse espaço tão comum depois da 00hr na minha rotina, naqueles meses ao longo daquele ano... só que ninguém soube das vezes em que estive lá, sozinha, com você, o dono, sua esposa, uma garrafa de vinho...
Desde aquele dia, nunca mais pararam de se falar... e eu sabia dos dias e dias de vazios, das minhas frases sem respostas, ou dos símbolos desconexos que despejava na minha conta.
Veio o dia da vergonha e ela foi o primeiro pensamento e eu a última pessoa a saber... veio o dia da minha doença e você só soube porque vivi para te dizer.
Isso, isso mesmo... alguma coisa em mim queria morrer com o seu desprezo, mas outra coisa queria viver para te rever.
No natal você estava de vermelho e eu sabia que não fazia sentido nenhuma mensagem de fim de ano para mim, mas eu "te esperei", brutalmente.
O ano recomeçou, eu estava viva e sem você e tudo ainda doía... você tinha um novo projeto de vida que não me contaria, pois não me incluía: eu morri para você, mesmo ficando viva.
Foram meses desde outubro, mês que conheceu sua sereia... muitas datas comemorativas sem querer saber se eu estava bem, muitas histórias que jamais imaginou que eu gostaria de saber... e que me contou, só agora, com a mesma falta de sentido que nos reaproxima.
Você não lembra... mas falou comigo naquele primeiro mês, de vocês... e quase acabou com o meu Círio... também nos encontramos um dia antes do meu aniversário, afinal era difícil ter sequer um beijo da mulher da sua vida, enquanto era fácil arrancar minhas roupas, me tirar da minha rotina e me deixar à deriva...
Então, no mês do amor e da família, você desapareceu de vez... mesmo mês em que eu fui destruída quando perdi meu trabalho e todos os prazos de saúde e compromissos acadêmicos - querendo sua mão para me ajudar a entender porque que a vida dói tanto e ainda mais sem a companhiade um a-mor...
Em janeiro, assim que melhorei, parece que você advinhou, que eu não precisaria de você, mas eu tinha algo que você queria - um corpo feminino para o seu "Faz de Conta" que ainda não acontecia.
Sim, só a matéria... a alma da personagem amada já respondia suas mensagens sobre música com a franqueza que só o amor permite - de não entender ou fazer questão do que você entendia das letras...
E ainda na aurora daquele mesmo ano, eu completava uma gestação a termo, sabendo que "Grávida" é sobre os olhos da sua mãe (e estão na sua alma gêmea). Mas só agora entendo que o "Sol na [sua] cabeça" pegava "o trem azul" e te deixava sozinho... e eu tive que bloquear seu endereço eletrônico para não mais receber suas tantas mensagens de despedida, ou dizendo que não queria me magoar, só não queria nada comigo... nada além de uma transa para contar aos amigos e não ficar para trás na corrida...
Tudo, enquanto construía um projeto de vida saudável, arrumava sua casa, recebia fotos lindas com mensagens fofas da sua nova e maravilhosa vida.
Chegou o carnaval e você lembrou da sua fantasia... eu... tive que contar da minha quase morte e seu desdém resumiu como me vê: você está a mesma COISA.
Nesse mesmo mês, na verdade na outra semana, você contou pra mim, e na rede mundial, da felicidade de estar amando de verdade a companhia de uma mulher recatada, inteligente, trabalhadora, boa filha, a namorada dos sonhos - não a fantasia mais usada...
O golpe foi tão fundo e eu estava tão rasa, que já não tinha muito pra perder... reconquistei um amigo, ele me defendeu de você contra mim (e minha vontade)... mais um homem que abriu a porta para outros... então sua fantasia se realizou e soterrou a mulher leal que eu havia sido e você jamais fez questão, como agora finge que faz (esquisito como é).
Implorei sua amizade, você respondeu que eu me machuquei sozinha, já que sabia de tudo que você não tinha prometido para mim.
Falando de promessa, depois da sua amada, a palavra fidelidade andou rondando nossas conversas: você me perguntava se eu seria fiel, depois de tantos homens que eu me relacionava, isso nesse outro seu ano com sua namorada, eu solteira e abandonada na lata do lixo.
Bem, foram alguns meses em que me mandou músicas de madrugada, tentou um contato sem sentido, jogou um ponto, um jota e a rede para brincar com meu corpo... e eu só cedi quando você me prometeu trabalho...
Eu, mãe, saindo humilhada do mestrado, queria lutar pelo meu sonho... e ainda me cuspiu uma frase: olha, se você passar no doutorado posso ver se consigo uma bolsa pra ti com a minha querida.
Nossa, além de mestre à revelia dos ritos institucionais do patriarcado capitalista, eu agora poderia ser ajudada pelo meu vilão e sua heroína/vício...
Engoli o choro, qualifiquei, terminei duas disciplinas, te ajudei a construir um evento importante (só para mim), defendi e consegui fechar a porta para você.
No entanto preciso dizer, vocês sairam em fevereiro, duas semanas depois de você me dizer que queria que eu te beijasse e fizesse amor contigo. Só agora entendo através do contrário do que dizia: ela se parece com você. Isto é, enquanto ela não permitia um beijo, uma intimidade, iria arrancar da vadia que te atende.
Então veio março e um corte digno da fidelidade medieval depois de me deixar dias no vácuo... veio o meu bloqueio.
Abril junto com um desbloqueio, o ponto nonsense... junho e seu conto de fadas estava mágico e eu longe, como você queria (mais que eu).
Maio e o aniversário da minha vida de mãe e você já levando alguns vácuos meus...
Junho e as minhas respostas frias as suas investidas dúbias que hoje eu sei servem pra você mentir sobre o que faz: "eu fui fiel a ela como nunca..." e aquelas mensagens?... "não aconteceu nada..." verdade, eu não cedi.
Julho e o seu silêncio me fez dar oportunidade para alguém que eu não sabia que era seu amigo...
Agosto e o meu sonho de ser professora e defender a Hilda de Dionísio... e vc na minha janela e no seu bar.
Setembro e eu mergulhei nas águas de Ariana, mas soube do evento que sempre sonhei participar.
Outubro minha defesa e a descoberta que você estava todo tempo dentro daquele meu sonho o qual fez questão de dizer que estava organizando... molhei a cama do seu amigo falando, chorando, que iria dar tudo de mim para fazer parte, enquanto eu saciava de verdade, dois animais.
Novembro, muitas brigas, alguns encontros, que eu sempre entendia como presentes do destino. Porém você fazia questão de ressaltar que era uma nova fantasia de tentação com a qual eu me vestia para testar teu relacionamento...
Meu Deus, se eu pudesse me revestir de alguma coisa para você... se eu realmente tivesse a chance de ficar vestida diante de você, dos seus olhos, das suas investidas, ao som da sua playlist... eu vestiria a minha roupa de casa, velha, larga, desboatada e te deitaria na minha cama e a gente pela primeira vez sossegaria.
Dezembro, o evento e os desencontros e controvérsias sobre o que as pessoas sabem da gente... se nunca existiu nada.
Janeiro, seu dia, seu mês, sua família, sua mulher, sua esposa... você me disse sem dizer: a escolhida. E ela fez seu papel maravilhosamente, te deu seu maior presente, não parecer um "loser" no dia 11 (que você me disse que era dia 10, mentiu sobre o seu dia de nascimento).
Você me diz que ela pediu um tempo, mas você a quer para sempre. Doeu! E veio descontar sua dor na minha lombar... no meu rosto... no meu ouvido... entrou na minha casa... falou com meu filho... eu e minha mãe cuidamos da lembrança de colo da sua mãe...
E eu não mereço respeito algum quando decido te tirar da minha vida intima e te colocar na vida profissional. Você me jogou no pisão na casa dos homens...
Eu e você, é só sobre isso e mais nada.
Hcqf 17 de março de 2025