Depois de fazer questão de me decepcionar outra vez... Lembrei do dia que conheci seus estimados leões...
Você disse que me levaria a um almoço. Desta vez, não mais os mesmos ambientes: banquetes, fartura, à luz do dia...
Só não disse que eu seria servida de bandeja. Avaliada, enquanto me alimentava, ou esboçava qualquer pequena expressão...
Foi um dia esquisito.
Cheguei, você comia com seus irmãos, mas não havia ninguém da sua família.
Sentei, você me olhava com desconfiança, parecia que estava diante de advogados: gravatas, sapatos pretos, todos muito sérios... Em meu cabelo, um verde-limão.
Você me ofereceu comida, bebida e até seu terno, mas ninguém me fez companhia.
Todos me olhavam, mas ninguém me via... Fiquei por horas sentada e calada na mesa das mulheres. Elas cantavam, se chamavam de cunhadas, mas nem meu nome perguntaram.
Guardo algumas lembranças desse dia, como você vagando entre as pessoas... Tive medo do seu olhar, estava certa.
Quando as mulheres puxaram assunto comigo, uma delas me chamou mais atenção... Conversamos por horas, eu não soube quase nada dela, nem ela de mim, nem daquele lugar... Uma conversa vazia como aquele dia. Depois de alguns meses você passou a frequentar a casa dela aos finais de semana, sem cautela alguma. Disse que foi gentil e ficou tudo resolvido, menos comigo.
O trecho da música que cantava, enquanto você atravessava o salão, lá longe de mim dizia: "a onda que me arrasta e me leva pro teu mar".
Já naveguei tantos mares ao seu lado. Frequentei seus lugares proibidos, seus piores estados, o escuro da sua alma...
Nunca a sala de casa. Nunca a festa com os amigos. Agora o tema que me oferece é o mesmo tema que de mim retira. Rouba da minha parte do laço e entrega em outros braços, por meses, até cair em si e encontrar meu contato.
Vim a este dia, porque está quase fazendo um ano, de novo. Tantas vezes fui dispensada e nunca deixada em paz. Acho que fui uma presa precária, não sei.
Acho que reprovei em algum teste naquele dia. Você me provou de novo e não quis mais, como sempre.
Mas sempre diz que aquele dia foi importante, como uma casa de herança, um apartamento destruído, suas sacolas de roupas sujas, meus lençóis emprestados, minha camisola escondida, meus amuletos de proteção, a conversa com seu irmão, o dia da chave, o olhar por entre a grande e nunca um feliz dia das mulheres ou das mães.
Acabou, pela primeira vez, comigo, como sempre.
Hcqf 15 de maio de 2026