sexta-feira, 15 de maio de 2026

 Esses dias, depois de fazer questão de me decepcionar outra vez... Lembrei do dia que conheci seus estimados leões...

Você disse que me levaria a uma almoço, porque queria mudar nossos encontros de ambiente. Seriam banquetes, fartura, a luz do dia...

Só não disse que eu seria servida de bandeja para ser avaliada, enquanto me alimentava, ou esboçava qualquer pequena expressão...

Foi um dia esquisito. 

Cheguei, você comia com seus irmãos, mas não havia ninguém da sua família.

Sentei, você me olhava com desconfiança, parecia que estava diante de advogados: ternos, sapatos pretos, todos muito sérios...

Você me ofereceu comida, bebida e até seu terno, mas ninguém me fez companhia.

Todos me olhavam, mas ninguém me via... Fiquei por horas sentada e calada na mesa das mulheres. Elas cantavam, se chamavam de cunhadas, mas nem meu nome perguntaram.

Guardo algumas lembranças desse dia, como você vagando entre as pessoas a me olhar... Eu tive medo, estava certa.

Quando as mulheres puxaram assunto comigo, uma delas me chamou mais atenção... Conversamos por horas, eu não soube quase nada dela, nem ela de mim, nem daquele lugar... Uma conversa vazia como aquele dia. Depois de alguns meses você passou a frequentar a casa dela aos finais de semana, sem cautela alguma. Disse que com a filha dela foi gentil e ficou tudo resolvido.

O trecho da música que cantava, enquanto você atravessava o salão, lá longe, de mim dizia: a onda que me arrasta e me leva pro teu mar.

Já naveguei tantos mares ao seu lado. Frequentei seus lugares proibidos, seus piores estados, o escuro da sua alma...

Nunca a sala de casa. Nunca a festa com os amigos. Agora o tema que me oferece é o mesmo tema que de mim retira. Rouba da minha parte do laço e entrega em outros braços, por meses, até cair em si e encontrar meu contato.

Vim a este dia, porque está quase fazendo um ano, de novo. Tantas vezes fui dispensada e nunca deixada em paz. Acho que fui uma presa precária, não sei. Acho que reprovei no teste antes da avaliação. Você me provou de novo e não quis mais, como sempre. Mas sempre diz que aquele dia era pra ser importante, como uma casa de herança, um apartamento destruído, suas sacolas de roupa suja, meus lençóis emprestados, minha camisola escondida, meus amuletos de proteção, a conversa com seu irmão, o dia da chave, o olhar da sua mãe e nunca um feliz dia das mulheres ou das mães.

Acabou, eu espero.

Hcqf 15 de maio de 2026

Carne devastada

 Ele me dedica suas piores partes

Consumo como iguarias 

Mas são apenas carne apodrecida

Comida de regiões devastadas pela guerra

Insetos, leite coalhado e partes relegadas de animais...

Insumos para sobrevivência em desastres 

Como as nossas madrugadas 


Hcqf 15 de maio 2026

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Da maior parte dessa ilusão 
Insiste a pergunta
Se diz de mim

Não em mim
Mas se quer saber
O que não pode à distância 

Se quer dizer
Onde não estou
Quando esteve longe

Se quer de mim
Algum saber 
Das coisas estranhas 
Que deixou ao partir 

Se a minha ausência 
Goza a sua presença 
Em outra vida

Quando não estando
É a minha falta que reaparece
Insistente das coisas perdidas

É em mim excesso
Como aquelas madrugadas
Em que esqueci de mim
Ao me encontrar no outro

Hcqf 24 de abril 2026


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Descobri outra 
Mais moça 
Mais forte

Tão potente, tão viva
Para ela
não quero o meu lugar 
Para mim 
Não quero mais esperar

Nossa diferença 
Está lá 
Está nela 
Nunca seria comigo

Seu olhar 
Sua história
Outro nome
Outra vida
Onde não caberia
Uma mulher
Pequenininha

Hcqf 23 de abril 2026



Acordei

Sonhei que você me procurava
Como nunca...
Perguntaria de mim
Minhas angústias 
Seria uma primeira vez, assim
Seria, não foi, enfim.

Hcqf 23 de abril 2026

quinta-feira, 19 de março de 2026

As vezes a noite não termina

Aconteceu,

 de novo

Não como antes, 

como a primeira vez


Um olhar firme,

 uma presença forte, notável, segura


Outra pequena, 

mas não miúda como a de sempre.

Essa tão viva, viajada, 

bem sucedida, como as outras,

 mas não como a de sempre.


Ultrapassa em méritos qualquer uma, 

Impõe sua presença,

 exige olhares, 

perturba amizades

Não como as outras,

 embora como a de sempre.


Tolices de uma navegação sem leme

Regada a noites sem dormir, 

dias sem sol, 

poeira no nariz e fumaça.


Um enredo tão cansativo, 

Que as gotas de tinta sufocam a escrita.

As vezes a poesia também termina.

Hcqf 17-24 de março 2026