domingo, 24 de maio de 2026

 A próxima 

Mas não como as outras

Aquela

Perdida na adolescência 

Jamais esquecida 


A próxima chance 

De dar certo

Para a família 


A próxima esposa 

Marina

e não Luna


Outra história

Sobre não ser satélite 

Ter luz própria 


Como alguém que cria as fábulas

Ao invés de conta-las

Ou escuta-las.


A próxima 

Das manhãs e

Fins de semana.


Das noites

De sonos tranquilos

Seguros em casa,


Sem madrugadas

In state of emergency

Na larva.


A próxima escolhida 

À luz do dia

Sem amanheceres 

Do lado de fora.


Hcqf 24 de maio de 2026


sábado, 23 de maio de 2026

Alchool... idólatra.

Perguntei quem era e você disse "a próxima". Entendi... ela era especial, diferente de alguém cuja vez nunca chega.

E disse para não desperdiçar outra cama à sua espera, nem outra companhia, pois "deve(ria) ter (outro)alguém que queira uma (outra)mulher bonita".

Anne, com "E", me contou o segredo: "não ter medo de ser devolvido". Entendi, também, que era sobre destinatário. 

Quando eu era criança pensei que era sobre não ter medo. Mas a casa importa. Diz a música: "a porta que se fecha na tempestade" e molha quem está fora.

Você contou coisas sobre ser um utensílio, embora quando inútil. Lembrei dos panos empoeirados das avós, que são inesquecíveis.

Assim a órfã explicou sobre o amor ao relento, como a raiz da roseira alimenta uma solidão e ao ser retirada, cada pétala (e não a rosa) canta uma "estrela caindo bem devagar" a realizar sonhos sobre (a)mar, diz o poeta na canção.

Escutei seu olhar, de cima para mim, em outra esquina por aí... Onde estive a olhar, do lado de fora, um pai feliz que eu nunca tive.
Milagres: a casa, as pétalas, o pai e não ser devolvida.

Hcqf 23 de maio 2026



sexta-feira, 15 de maio de 2026

Depois de fazer questão de me decepcionar outra vez... Lembrei do dia que conheci seus estimados leões...

Você disse que me levaria a um almoço. Desta vez, não mais os mesmos ambientes: banquetes, fartura, à luz do dia...

Só não disse que eu seria servida de bandeja. Avaliada, enquanto me alimentava, ou esboçava qualquer pequena expressão...

Foi um dia esquisito. 

Cheguei, você comia com seus irmãos, mas não havia ninguém da sua família.

Sentei, você me olhava com desconfiança, parecia que estava diante de advogados: gravatas, sapatos pretos, todos muito sérios... Em meu cabelo, um verde-limão.

Você me ofereceu comida, bebida e até seu terno, mas ninguém me fez companhia.

Todos me olhavam, mas ninguém me via... Fiquei por horas sentada e calada na mesa das mulheres. Elas cantavam, se chamavam de cunhadas, mas nem meu nome perguntaram.

Guardo algumas lembranças desse dia, como você vagando entre as pessoas... Tive medo do seu olhar, estava certa.

Quando as mulheres puxaram assunto comigo, uma delas me chamou mais atenção... Conversamos por horas, eu não soube quase nada dela, nem ela de mim, nem daquele lugar... Uma conversa vazia como aquele dia. Depois de alguns meses você passou a frequentar a casa dela aos finais de semana, sem cautela alguma. Disse que foi gentil e ficou tudo resolvido, menos comigo.

O trecho da música que cantava, enquanto você atravessava o salão, lá longe de mim dizia: "a onda que me arrasta e me leva pro teu mar".

Já naveguei tantos mares ao seu lado. Frequentei seus lugares proibidos, seus piores estados, o escuro da sua alma...

Nunca a sala de casa. Nunca a festa com os amigos. Agora o tema que me oferece é o mesmo tema que de mim retira. Rouba da minha parte do laço e entrega em outros braços, por meses, até cair em si e encontrar meu contato.

Vim a este dia, porque está quase fazendo um ano, de novo. Tantas vezes fui dispensada e nunca deixada em paz. Acho que fui uma presa precária, não sei. 

Acho que reprovei em algum teste naquele dia. Você me provou de novo e não quis mais, como sempre.

 Mas sempre diz que aquele dia foi importante, como uma casa de herança, um apartamento destruído, suas sacolas de roupas sujas, meus lençóis emprestados, minha camisola escondida, meus amuletos de proteção, a conversa com seu irmão, o dia da chave, o olhar por entre a grande e nunca um feliz dia das mulheres ou das mães.

Acabou, pela primeira vez, comigo, como sempre.

Hcqf 15 de maio de 2026

Carne devastada

 Ele me dedica suas piores partes

Consumo como iguarias 

Mas são apenas carne apodrecida

Comida de regiões devastadas pela guerra

Insetos, leite coalhado e partes relegadas de animais...

Insumos para sobrevivência em desastres 

Como as nossas madrugadas 


Hcqf 15 de maio 2026

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Da maior parte dessa ilusão 
Insiste a pergunta
Se diz de mim

Não em mim
Mas se quer saber
O que não pode à distância 

Se quer dizer
Onde não estou
Quando esteve longe

Se quer de mim
Algum saber 
Das coisas estranhas 
Que deixou ao partir 

Se a minha ausência 
Goza a sua presença 
Em outra vida

Quando não estando
É a minha falta que reaparece
Insistente das coisas perdidas

É em mim excesso
Como aquelas madrugadas
Em que esqueci de mim
Ao me encontrar no outro

Hcqf 24 de abril 2026


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Descobri outra 
Mais moça 
Mais forte

Tão potente, tão viva
Para ela
não quero o meu lugar 
Para mim 
Não quero mais esperar

Nossa diferença 
Está lá 
Está nela 
Nunca seria comigo

Seu olhar 
Sua história
Outro nome
Outra vida
Onde não caberia
Uma mulher
Pequenininha

Hcqf 23 de abril 2026