Espero há horas por rever... Mas desisto e me entrego ao entorno: paredes, cadeiras, jovens e suas expectativas, nenhuma fome...
Uma amiga que esperava conversava comigo, sentada ao meu lado, eu de frente pro perigo.
De repente, curvado aparece...
Desvio o olhar, mas assisto ele desviar de mim.
Constrangida, asseno com a vista, ele retorna sem saída e convenientemente estende o braço, com o corpo virado, indo embora...
Sentindo o abalo do contato forçado, peso a mão em um toque desajeitado, aperto e jogo aquele toque ao chão.
A amiga que espera agora puxa conversa com ele.
Falam de histórias que eu gostaria de ouvir, mas não sou mais daquela linha...
Fico quieta, escondo a sombra no olhar insone.
Ainda agora sinto que também pensa sobre e por alguns minutos escondo de mim o grande esforço demonstrado para ser educado comigo.
A face escura debaixo do cabelo curto e colorido, ao lado do escuro que me assombra desde a madrugada.
Havia desistido de esperar fazia alguns minutos, descansei o amargor da boca, do estômago e do peito sem dormir... Ensaiei a frustração de estar ali, só por mim... Vejam "só por mim"... E tudo se quebrou quando senti que ele iria fingir que não me viu.
Ele partiu e eu estava perdida, uma parte minha tinha sentido o peso da sua presença e queria ainda... A outra pressentia mais frieza e desejava não vê-lo mais...
Dei-me por vencida, mas estava derrotada.
Andei a procura do compromisso que me levou até ali sem dormir direito. Encontrei tantas portas fechadas e em um corredor discreto e solitário, como eu, me encontrei.
Entrei na sala, falei com as cadeiras e o quadro, as pessoas me saudaram e eu busquei um canto para me esconder e ver se passava aquele peso amargo que tomou conta.
Inesperadamente ele voltou com um trunfo final, mais uma apunhalada: um cartão de falso amigo. Contou uma história sem sentido sobre uma foto desfocada, tirada sem jeito, sem propósito, mas que tinha uma intenção: falar para mim sobre alguém que me fez mal, trazer à tona uma história triste...
Na hora quase entendo a afronta, respondo no mesmo tom seco, mas ele inventa outro motivo para aquela abordagem... Finge que seria um defensor da minha desonra (só pode), mas a frieza nos gestos, na face entrega outras das suas artimanhas...
Aposta em outra direção mais fútil: me afastar do seu condado, me indicando para seu antigo refúgio financeiro, diante dos perigos da cidade grande.
Diz que restará uma vaga, que agora percebo que ele não me diria, se eu não tivesse aceitado aquele convite noturno improvisado.
Quando eu revelo que gostaria de ir pelas minhas amigas, ele não esboça qualquer expressão e ainda diz que talvez, sem querer, poderia voltar no final...
Fico me perguntando que final?
Ele corta a conversa quando enjoa da minha companhia. Sugere que estão me esperando ali a diante, eu ingenuamente não entendo que está enfadado. Checo a questão, retorno sem relevar seu desinteresse, então mais evidente, ele desconversa como sempre e é salvo.
Levantamos e ele abre os braços de lado: ele olhando pra frente, eu com o rosto pra baixo e os olhos fechados, mas vejo tudo que não existe ali naquele abraço.
Enxergo, de fora de mim, como quem observa atônito aquela falta de jeito, falta de consideração... Acontece um beijo no meu cabelo, eu levito até a sala a minha espera e fico em sua presença mesmo saindo do seu lado, mesmo não vendo ele ir embora, mesmo a porta fechada.
Entro, escolhi uma cadeira, acomodo meus pertences mas minha alma incomodada não registra nada... Vela alguma coisa morta naquela sala, depois de tanto desmazelo, ou até mesmo desprezo.
Lembro que numa das tardes de longas mentiras, contou que precisou ir embora depois de me encontrar na padaria, porque queria contato físico. Pensei nisso, assim que fiquei sozinha, após sair da reunião. Lembrei que em outro momento, um encontro de trabalho nos levou a algumas horas de satisfação carnal, como poucas vezes consegimos juntos.
Mas logo veio a constatação: por que ele me questiona sobre um cara tão desprezível? Por que arriscar me fazer lembrar de algo ruim? Por que não tocar no nome do outro amigo, o que gostei de estar?
Nada disso é importante... Nem mesmo escrever sobre o ocorrido...
Mas é uma busca de sentido para o que ele me faz sentir, depois de encontrar restos dele nas minhas coisas e entrar em um dilema sobre ceder ou não do meu desejo.
11 de dezembro de 2025
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