sábado, 24 de outubro de 2020

Psi

Nesses dias, tenho pensado sobre a vontade de ser psicóloga...
Só eu sei o quanto não parecia para mim, e o quanto ainda hoje encontro recuos nesse meu caminho.
Mas é uma decisão muito pessoal: todo dia escolho a psicologia.
Eu poderia dizer que fui escolhida pra isso, mas é tão minha a maneira que me coloco nesse lugar, que transborda para outras áreas, sem inundá-las.
Sou aquela que tem sede por escutar, tem fome de interpretar e vê na vida mudanças diárias que enchem de possibilidades as histórias.
Por vezes a minha alma doe de tanto aceitar o lugar do acolher, do frustrar, do acompanhar na dor, ou do simples ouvir memórias... 
Sim, existem muitos percalços. Alguns invisíveis, como as faltas, os silêncios, as decepções, e os abandonos.
Porém cada escolha de bancar e assumir o lugar incômodo de sentir com todo o corpo, os sentidos e os sentimentos, veio ainda antes..
Não quis a riqueza material das profissões mais utilitárias e seus status de necessárias.
Preferi ser a amiga que ninguém sabe que é procurada. E que ao oferecer uma orientação não precisa escutar que deve resguardar aquela circunstância.
Nesses dias venho reencontrado esse momento de decidir pela psicologia... Lembro do começo, do antes, do sempre, do que não termina em mim e do reitera...
H.C.Q.F. de 24  outubrode 2020

terça-feira, 6 de outubro de 2020

O Fracasso vem da alma

 O Fracasso é um grande educador! 

Não um professor, que ensina a lição do dia, e você esquece assim que ele apaga a lousa. Também não é um mestre, porque não tem um aspecto de grandeza.

Ele é simples e direto, você aprende por estar passando pela situação e não tem como escolher não passar.

Assim, de maneira objetiva, fracassar ensina sobre o que ninguém poderia te fazer aprender só de ouvir contar, também não daria para aprender só de ler, ou mesmo saber que existe.

No dia de aprender com o Fracasso, todos os seus aprendizados são sentidos por seu corpo, seus sentimentos e seu pensamento. O seu emocional é tomado por uma atmosfera que no começo é tal como  estar em uma tempestade sem abrigo, depois parece quando a chuva passa mais o frio permanece, mais tarde vem a neblina -quando você tem que acordar bem cedo para um compromisso inadiável... Parece com tudo o mais que em outra circunstância qualquer um adiaria, e deixaria para um outro dia, mas agora não tem saída.

Exatamente assim... Quem te fez mal, fica forte e cresce pra cima de você... Quem te fez bem, não consegue voltar a fazer... E só tem uma saída: você se encontrar com você, e todos os seus defeitos, mas também suas qualidades.

Justamente, os seus defeitos ficam em relevo, viram brilhantes e você é o alvo de todo tipo de julgamento. 

Ninguém quer se ermanar ao fracassado. Ninguém quer chegar perto. Existe o medo de levar o fracasso pra própria vida. E também é mais cômodo se identificar a quem está forte e seguro de ter vencido, do que chegar, ao menos perto de quem fracassou. É nesse momento que a gente aprende muito sobre covardia também. E não é fácil enxergar a intenção de quem estava na sua vida e muitas vezes não deveria estar.

De repente, enquanto seu corpo aguenta e se fortalece em meio às intempéries - quanto mais atento a si mesmo, aos seus desejos -surgem sentimentos muito sofisticados, próprios dos momentos difíceis, tais como: esperança, fé, amor próprio.

Esses  sentimentos são como oasis no deserto, atribuem sentido a algo muito simples, que em meio a rotina não valorizamos, por exemplo, beber água.

E como água no deserto começam a brotar suas qualidades diante dos seus olhos. Ali no espelho, esteja ele quebrado, envelhecido, manchado, esquecido... Você passa a perceber virtudes que não se dava conta de ter, e começa a cultivar características, as vezes tímidas, que lhe pareciam desnecessárias. E estas serão grandes companheiras depois que o fracasso for embora.

Sim, um dia, quando você já estiver afeiçoado a sua presença, como uma visita inesperada que te coloca em situações desagradáveis e mesmo assim você vai se alegrando nela sem perceber, o Fracasso vai embora deixando uma saudade enorme regada até a risadas ( foi ele quem inventou o ditado: um dia você vai rir disso tudo).

É que desde o dia em que chegou foi fazendo as malas para partir. Sabia cada sonho que a sua alma pedia para se realizar, enquanto você não podia escutar.

E foi tirando da sua vida: cada pessoa mal intencionada, cada objetivo covarde, cada situação desnecessária que você se colocou por estar surdo para si mesmo.

A mala do Fracasso é sempre enorme, por isso que quando ele passa a gente fica leve. Ela também é muito grande, porque ninguém fracassa por um único motivo.Ele é resultado do acúmulo de empecilhos ao seu crescimento.

 A alma nunca fracassa, mas o Fracasso vem da alma. E só quem tem a alma viva e honesta é capaz de passar pelo Fracasso. Posto que é preciso muita c(alma) pra crescer em vida.

H.C.Q.F de 6  outubrode 2020.



domingo, 20 de setembro de 2020

N

Se sentir amado, é saber que não há uma condição para que deixe de sê-lo. 
Não existe o medo de errar, mas existe o medo de perder... Uma das ambiguidades que cabe no amor.
Ele entrega ao amado ser uma aceitação tão grande, que os erros fazem parte, os defeitos também...
Fora do amor, errar faz doer e partir...
Dentro do amor, errar faz aprender e amar ainda mais...
Vendo um episódio de Anne, senti a dor da pequena órfã ao ser devolvida ao orfanato, devido a suposição de furto. Exatamente aí não cabe o amor...
O medo de ser devolvido... O deixar de pertencer...
Por isso ser amado é tão constitucional, constrói parte importante da nossa identidade, aponta onde podemos ser encontrados e para onde podemos voltar...
Não caber mais num lugar, que alguém disse que você teve, faz perder o sentido de amado ser.
Devolver alguém também faz o sentido de amante morrer.
Se você ama pelo que a pessoa é, existe essa condição, não é amor.
Se você é amado pelo que tem, existe uma condição, não é amor.
Se existe amor diante da dor, também não é amor...
Amor é o que permanece depois de tudo: depois que o tempo passa, que a situação muda, que o temperamento se intensifica, em meio a doença e a saúde.
Não é amor o que traz saúde, isso é remédio,ou boa alimentação.
Não é amor o que faz sofrer, não seria, amor é o que passa horas e dias com doer e com alegria...
O amor é ambivalência, polissemia, paradoxo, ambiguidade, distopia...
Faz sofrer e chorar, também sorrir e cantar.
É amor quando é todo dia.
H. C. Q. F. 20 De setembro de 2020.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Presença na saudade

Sempre tive saudade em mim...
Como se fosse parte dos meus órgãos do sentido...
Sempre foi sinestésico: sabor de saudade, cheiro de saudade, som da saudade...
Agora encontrei seu nome em mim.
E de tão alva presença que me ilumina mesmo na ausência... 
É Lu(is) de dia e de noite... 
E se não está comigo é inteiro saudade, porque perto dele o presente é pleonasmo.
E o passado é anacrônico, revejo-me criança.
E o futuro é paradoxo, já que não o vejo nas minhas atitudes adultas, posto que lhe quero mais sábio e mais feliz.
É o meu sonho em vigília contemplado... 
Mas também pesa não poder estar com.ele.sempre.perto... 
Desejo que ele, qual presente de mim se lembre.
Diz a canção: "Eu tenho medo, mas sei que isso é bom, é com o que conto pra sobreviver..." (Vital Lima - O Parkour)
H. C. Q. F,18 de setembro de 2020.

Indicação de música do YouTube:
Parkour - Vital Lima
https://youtu.be/hlrQUHXoeDg


quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Pres(ente)

Um dia, na adolescência dos meus dias, ouvi que estar ao meu lado seria o melhor presente de aniversário.
Algo inesquecível! Ainda agora me surpreende... Um frio, gostoso, toca o meu ventre...
Então de repente, quando eu disse:
- felicidades!
Ele disse:
- hoje eu só queria ficar o dia todo do teu lado.
Se sentir um presente para alguém não tem tamanho... 
Não cabe em um momento...
Não tem fim...
Não tem uma referência anterior.
É insuperável! 
Marcante como uma dor, que não flagela, mas corrói as defesas... 
Da pra sentir cada pedaço do medo de se entregar, de se envolver partir...
Fez sentir o quão singelo é tornar alguém amor.
Não está na matéria... 
Não tem um jeito certo de acontecer...
Não segue qualquer padrão...
Faz existir na mesma hora uma alma amada, que vira um manto, que de dentro para fora esquenta e envolve.
Cobre todo o corpo, no frio da saudade.
Es que nasce um abraço invisível que vira abrigo diante da sensação de vazio.
Tal que inaugura o sentir falta, que apesar de nascer antigo, ganha sentido e fundação. Daquele dia em diante, toda distância merece a existência do contrário. 
E eu ainda lembro do rosto que disse, do momento em que sua boca não exitou em entregá-lo, mas não foi tão fácil.
Ele abaixou a cabeça e só levantou pra dizer, depois abaixou pra sentir o que dissera, doeu em nós dois.
E agora parece que só sobrou a dor...
No entanto, é sempre agora, quando recordo desse amor.
 Sentir ser amada é eterno. Tal como ensinou uma estrangeira a Sócrates, segundo Platão.
Ser presente é deixar de ser instante.
Faz nascer o ser amante e o ser amado no mesmo ente.
H. C. Q. F. 10 De setembro de 2020.

sábado, 5 de setembro de 2020

Parar de sentir

 


Não sei como é deixar de amar alguém...

Nunca experimentei parar de sentir o amor que nem escolhi doar, mas nele me dei.

Como pedir de volta um desejo que foi para o outro? 

Não há como pegar de volta... 

Me peguei pensando em quantas vidas já amei e percebi que nem ao menos uma eu deixei de amar.

Ainda sinto a mesma alegria quando lembro dos dias lindos e ainda sinto a mesma tristeza por aqueles em que nos ferimos.

Pensei também se não seria melhor não pensar e então guardá-los em silêncio. Talvez fosse, mas não é...

São lembranças teimosas vem e vão embora quando um cheiro, um lugar, alguém faz lembrar uma cor, um detalhe...

E são esses detalhes que tornam o amor inesquecível. Cada pedacinho consagra o infinito. É que são tão miúdos, que nos dias em que os encontramos,o mais provável, é que nem percebemos que eles atracaram bem lá no fundo, onde é tão escuro que nem parece existir. Mas uma fagulha de luz já torna possível contemplar essa nossa profundeza.

E quando o vento da saudade sopra, eles se espalham pelo dia e cada canto da nossa história reaparece numa música que mexendo em uma playlist antiga, "sem querer", faz um grande amigo reaparecer; ou passando em frente a uma doceria, o cheiro de bolo de milho faz levar pra casa ao menos uma fatia do bolo preferido da avó mais querida... 

E cada recordação parece ao acaso, mas  bem no fundo, não é não... É saudade de nunca ter deixado de amar quem nos amou... 

Não dá para parar de sentir o que seu corpo, sua memória capturou do mundo para fazer parte da sua história.

É num caminho que se pega errado ir parar na parada incerta e fazer todo sentido ter chegado.

H.C. Q. F. 5 De setembro de 2020.