segunda-feira, 15 de julho de 2024

Um engano compartilhado

 De novo caí em uma cama vazia... Mais um homem sem intuito de vínculo comigo, mais uma alma penada pro meu sótão mal assombrado.

Sei lá... Eu sei dos dispositivos sociais de subjetivação, eu sei das tantas e tantas dificuldades em se construir uma relação... Mas me deixei levar.

Ele tava lá, sem opção, precisando renovar os parâmetros para se desligar de outra pessoa... E eu quietinha, de alguma forma satisfeita com minha solidão... Ovulando, é verdade... Mas antes de tudo, humana, sem esperar um alguém.

Veio ele, suas derrotas pessoais, suas canções vazias e suas palavras pontiagudas mirando os meus sentimentos.

Eu sei, tem uma vulnerabilidade que enlaça o feminino como caça no social, mas a escolha parece ter um critério: uma mulher se erguendo, com suas experiências ruins, seus traumas... Tem um alvo no meio do meu corpo, invisível para mim, mas que reluz para os mal intencionados...

Tantas ressalvas para falar de uma noite de passeio, de conversas e intimidade em abundância. Como pode? E muito questionamentos: foi algo que eu fiz? É o meu corpo? Foi por eu ter aceitado não pagar nenhuma conta? Não sei, parecia que ele queria proporcionar, mas eu deixar foi errado? Não sei... Eu fiquei muito à vontade? Me dei demais? Ele não queria? Ele enjoou? Aconteceu tudo que podia acontecer? Nada era verdade?

Não tem aquela inocência de antes, em que um abraço era sobre abrigo, o beijo era uma entrega viva, o sexo era o último recurso possível para aquecer as lembranças quando a distância era irremediável.

Não. Música, letra, canção, violão... Nada estava lá de verdade, era tudo cenário: o arrepio, cada gesto, cada toque, cada palavra... Tudo pensado para conquistar por algumas horas... Mas podia ser minutos, podia ser o dia todo (ele perjurou)... Mas não existia depois.

Pode haver chamada, por mensagem, por figurinha, talvez chegue a covardia de uma letra aleatória... E o nada vai tomando forma, tudo que nunca esteve esmaece e a fumaça abandona o ambiente deixando frio cada canto e destaca a vergonha no centro.

Meu corpo tomado de engano... Não era sobre a beleza no chuveiro... No final era sobre as sobras de um jantar sem pompa e circunstância, para ninguém importante. Menos que alimentar, era sobre oferecer restos apodrecendo por dentro.

Homens famintos de estômago cheio e peito seco. Mulheres entregues à miséria dos seres: desamor, mentira, ilusão, abusos...

Meu corpo tem pequenas lacerações: dói a minha intimidade, minha boca sofreu algum machucado, a parte mais interna da minha língua, incrivelmente, inchou, está dolorida com uma espécie de elevação incômoda... Embora, mais internamente, bem no fundo, uma frieza ecoa feito aviso de temporal. O tempo parado, nem um vento a soprar, nada se movimenta e o espaço parece testemunhar o vazio mais cruel experimentado: a rejeição.

Está sim, está doendo, mas ainda não sei. Tem um silêncio ecoando longe... Por que? Por que tanta mentira para experimentar um corpo? Para que amordaçar a alma vassala? Não era para encantar, então por que a música? Não era para marcar, então por que o carinho? Por que chegar tão perto? 

Ele contou, sem querer: não faria um convite sórdido para alguém especial, então, independente do que fizesse, nada daquilo era sobre consideração. Não havia intenção de desrespeitar, mas de encenar, mentir... E estava tudo em ato, desde o começo.

Dado o contexto, o que será contado sobre uma noite agradável com um homem, não é nada mais do que uma ficção resgatada em palavras para depurar um engano compartilhado.

Hcqf 14 de julho de 2024


sexta-feira, 12 de julho de 2024

Estranhez

Como entender o desejo por outra pessoa?
Como explicar que a sensação de ser tocado e se sentir à vontade impulsiona?
A sensação de ter o corpo desenhado pelo tato do outro, sem contrato prévio, sem lei que determine algo e mesmo assim achar os próprios limites...
Não há como ser indiferente a esse misto de intimidade e sensibilidade... Fica tudo no ar e faz sentido não entender e é o que preenche de lacunas as lembranças e a saudade dos momentos juntos.
Dói querer essa experiência humana e não se permitir...
Dói não sentir que o outro quer...
Tem dor e tem prazer e disso não há como esquecer, fica gravado na pele e na memória...
É sobre isso também, sobre acordar recordações sem palavras e os indiziveis formarem um dicionário com pequenos detalhes do que foi a sua aventura diante da estranheza que é o outro.
H CQF 12 de julho de 2024

terça-feira, 11 de junho de 2024

Terra escondida

Não é como se fossemos diferentes,
Somos opostos.
Estando vivos na mesma Era,
Entre dimensões paralelas.

Não como Vênus e Marte,
Muito mais como as distâncias entre os pólos terrestres
E a gélida solidão encrostada há milênios
Em cada ponta da Terra.

O degelo que agita os mares,
Aprofunda as águas oceânicas,
Firma ainda mais nossa hiância.

Enquanto ele caminha entre letras e sonhos,
Eu navego a espera de um futuro melhor.
Eu cuidando de uma casa 
Ele morando em uma biblioteca.
E, para mim, não há praia à vista.

Hcqf 12 de junho de 2024

sexta-feira, 31 de maio de 2024

Angelic hell

 Ele volta e encosta em algo...

Eu me (re)viro e sinto...

Ele me diz e eu me (en)torno nele.


Quero vê-lo 

De novo senti-lo

Estou com frio, sem ele.


Eu esquento de sonha-lo

 em mim...

Ele não se estende

Eu não desisto


Animada por esse desencontro 

Sonho em encostar nele

Eu, um anjo

Ele, um capricho

Meu.


Hcqf  01 de junho 2024






domingo, 19 de maio de 2024

 No dia certo, a hora errada...

Eu sei quem quer ser "The baby daddy" , mas ele não sabe que eu sei...

Nem sabe o que eu sei...

Pensei em enviar o sentido, construir uma significação possível. Como se construir uma fantasia fosse possível só de se querer.

Não, não é sobre querer algo, é sobre desejar alguém, ou alguma coisa se alguém...

Tem um objeto e dois sujeitos... E um hiato. Isso que falta derruba o cenário. Não, não é de verdade.

Desejo e ação.

Hcqf 20 de maio de 2024

quarta-feira, 10 de abril de 2024

Subjeto meu

 Qual o gosto da sua boca se encontrar meu gosto?

Como sua pele sentirá ao tocar a minha superfície?

Somos dois, ou um corpo?

Somos só corpo ou sentimos?


Quero sentir o sabor do seu cheiro embaixo do pescoço...

Quero enroscar meu cabelo no seu rosto

Ah, eu quero você e como eu quero...


Deitada em você feito cobertor 

entregue ao sabor do frio 

de um leito em busca de calor


Quero desenhar seus contornos

 com a ponta dos dedos e o nariz gelado

 como o prazer que reveste minha boca com sede...


Clichê e igual pode ser...

Vestir seu terno

abraçar inteiro seu tronco 

Metade tecido e a outra pele


Não quero dormir

Quero sonhar

Isso é diferente...

Hcqf 10-11 de abril 2024