domingo, 23 de maio de 2021

Livro de receita

 Faz tempo que me vejo sendo uma página virada na vida das pessoas...

 São amigos que se afastam, amores que eu perco, fugas que invento e depois me arrependo...

Desta vez queria estar começando a escrever um livro. 

Nutrir um afeto gostoso que dá vontade de continuar, e nos dias difíceis ter tempero suficiente para os dias insossos...

Porque existem dias sem graça, em que não há doçura, não tem emoção, dias em que não se vê cura para os sofrimentos antigos...

Porém, têm aqueles em que só falta o ingrediente certo. Às vezes improvável, as vezes agridoce, às vezes até meio amargo... Naquele dia, naquela hora, desde aquele momento vira o preferido.

Estou sentindo falta disso que afeta o sabor das coisas, ou que dá mais sabor à vida.


H.C.Q.F, 23 de maio de 2021.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Gestos de des/amor

 Não se sentir em casa, em lugar algum...

Poderia ser poético, alma viajante, a casa é o mundo, mas não. Para que o mundo fosse seu lar, o abrigo que tem no peito tem que ser ilimitado, como a maneira como se sente amado. E não é sobre amor, mas sobre sentir falta...

Qualquer lugar do planeta é hostil, com quem não tem onde se referenci(ar)... É não ter por quem gritar no desespero, e guardar poucas lembranças boas e muitas histórias de despejo, solidão,abandono.

Aguentar essa carga é desumano. Tira até a delicadeza da alma de bichos, que são muito cedo expostosa aos intempéries das matas. Embora sua natureza, faça-os mais fortes perante a solidão, mas não menos sofridos e amedrontados quando estão fugindo do desamor humano.

E neste instante assemelho a incapacidade de amar à raiz da violência. Quando a agressão transborda e descaracteriza a vida revelando o inani(mato). Assim que a morte domina a cena e o que desliza por cada via do organismo é frieza, malícia, mentira e deixa o outro em destroços.

Essa capacidade de odiar também engendra o que anima o ser. A dose desse veneno amarga os sonhos e constrói os pesadelos mais terríveis: todos desejos que o sangue envenenou com pura maldade.

É sobre o que é familiar na vingança, no ciúme, na cólera, na solidão, no desassossego, e esfria o peito com a dor mais conhecida: aquele dia em que o desespero não viu o colo que merecia.

No adulto essa semente já está germinada, em alguns suas raízes sedentas correm pelo corpo-alma em busca de todos os líquidos-desejos e os desidrata.

Na criança essa semente é plantada, o quanto que é regada pelos que lhe acolhem, ou não, fazem esse fruto maldito destruir a capacidade de folh(ar), flo(rir), cres(ser)...

A falta de cuidado que o desumano semeia, vem da sua incapacidade de assumir que cresc(eu). Tem irresponsabilidade em demasia impedindo o cultivo do outro na sua vida. É um ser solitário por indecisão, e neste sentido quer dizer: por não querer decidir, por abrir mão de escolher.

Está naqueles que gastam atitudes ao léu, brindam o destino, porque ele alimenta a covardia voraz, que os consome. Justamente isso, tem força e poder de destruição dentro do que se acovarda em tudo.

Todavia, a vida, habit tão antigo quanto o pó pra onde vamos, é a força de amor e cria, isto é, tem potência como todo início. Porisso também reconstrói, revitaliza e redireciona o sentido. É capaz de recomeços, como a capacidade humana de inventar histórias a cada reencontro com a pena, a página em branco e os novos habitantes dos seus delírios, sonhos e círculos de convivência.

Convivas, neste mundo da dependência sexual de ter alguém. Embora sempre perdidos de amor por quem nos abrigou por vontade, por desejo, ou sem querer.

O mapa que aponta nosso desejo mais íntimo são as atitudes, canções, narrativas e histórias do que era estranho e familiar na infância. Do que foi contado e cantado enquanto não sabíamos onde estávamos, quem éramos,  e se em algum momento soubemos quem nos amava a cada gesto.

H. C. Q. F de 4 de fevereiro de 2021


terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Seia

Enquanto se reflete sobre (um) amor, não é incomum encontrar escritores, seus textos e seus personagens universalmente reconhecidos sobre o tema: Shakespeare, Romeu e Julieta; Machado de Assis, Capitu, Bentinho; Jane Austen, Emma; Platão, Sócrates; etc. A lista é muito grande e não é sobre a vasta literatura romântica o que me proponho a dis(correr). 
A questão que me tocou foi que o texto mais conhecido, comentado e citado sobre o amor, é "O Banquete", o qual tem como cenário uma celebração com comida e bebida.
Isto é, não é o fato de ser uma festa, e ainda assim isso também importa. Todavia, que em meio a comemoração haja comida e bebida, provavelmente em abundância. 
Não que a quantidade esteja em evidência, mas que entitular a narrativa com o tema, banquete, simpósio, festa com bebida, em si remeta à fartura (escuto faltura, fratura). Embora o que se coloca em questão vai para além de: o que se comeu, ou bebeu e o quanto se fartou, ou mesmo o motivo daquele banquete.
Entorno da mesa, medicina, poesia, política, dialética e filosofia a elogiar outra arte humana, talvez a "arte mãe". E neste contexto, alimentar constrói um sentido para o fio que conduz cada tentativa de contar a gênese de amar.
E origem também ajuda a costurar esse cenário, onde cada estória conta um pouco sobre aquele que a escolheu.
Como que rememorando o quanto de amor foi em si regado, cada (his)tória parece mais ou menos satisfatória. Como quando o prato preferido é servido frio demais, ou um pão repartido é capaz do milagre da satisfação.
Não é sobre sentar e despejar a fome, de uma vida, em inúmeras colheradas. Faz mais sentido a gota que alivia a sede do amar descabido com a lágrima do reencontro; ou da despedida, ao transbordar do ser em busca do que lhe faz falta quando perdido.
E perder a hora da comida não é grave, mas perder  a fome é, remete a deixar de ter desejo por alimentar o corpo, a mente e a vida. 
Talvez uma lembrança esquecida, que faz o sentido-ser vacilar.
Talvez, a força da lembrança de ter sido alimentado de amor em meio ao desejo de ser amado, faça uma narrativa sobre celebrar com comida e bebida, resgatar a história mais antiga de humanidade: satisfazer-se com o outro.
Daí em diante: precisar de alguém é humano; não se sentir sozinho é social; amar é romântico;
Mas encontrar (um) amor é banquetear na vida, isto é, uma celebração erótica com comida e bebida de lamber os beiços, que dá água na boca. Afim de chegar à antropofagia que satisfaz a carne e a alma.
E porque desmamar está na ritualística de amadurecimento do pequeno ser, a gula é chamada de pecado, quando na realidade é o desejo bem guardado de se fartar de amor na "seia".
H. C. Q. F. De 2 de fevereiro de 2021.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Medo x negacionismo

 Um dos piores dias no meio dessa pandemia. A segunda onda do coronavirus assombrando o Brasil com ainda mais mortes, principalmente, a de quem esteve em casa se cuidando, pois existem muitos assintomáticos negando a gravidade da doença e colocando em risco a vida e a sanidade mental, de quem esteve todo esse tempo se resguardando.

Centenas de mortes diárias, somando milhões de mortes e ainda a falta de leitos agravando a busca de melhora nos casos moderados e graves. Pessoas agravando e morrendo por falta de cuidados, já que a rede de saúde pública e privada começa a entrar em colapso.

Não é o meio da crise o que mais causa temor,mas sim o início e toda sorte de descontrole e falta de compreensão sobre a situação. Ficamos jogados em meio a medo, desesperança, desespero e muitas mortes.

Por sua vez os governos não fazem as devidas restrições por causa das promessas de alta de vendas do fim de ano. E enquanto isso as pessoas não vêem que podem passar as "festas" nos hospitais, em respiradores, enlutadas, ou até mesmo não chegarem as festas.

O luto que já é algo que cria uma variedade de sintomas negativos de tristeza, desesperança, em uma situação calamitosa como a da pandemia abre caminho pra toda sorte de sintomas psicopatológicos: pânico, fobia, ansiedade, depressão, psicose, etc.

Não é fácil conhecer todas essas possibilidades pelo horizonte e saber que uma área como a saúde mental não é respeitada.

Conviver com o medo e o negacionismo acaba sendo tão pior quanto estar em meio a uma pandemia. A descrença na gravidade, na transmissão, na mídia que divulga as notícias do país, tudo transforma o pior no caos.

Precisamos de muita paciência, autocontrole e fé, porque está muito difícil esse final de ano.

H. C. Q. F. 20 de dezembro de 2020


sábado, 24 de outubro de 2020

Psi

Nesses dias, tenho pensado sobre a vontade de ser psicóloga...
Só eu sei o quanto não parecia para mim, e o quanto ainda hoje encontro recuos nesse meu caminho.
Mas é uma decisão muito pessoal: todo dia escolho a psicologia.
Eu poderia dizer que fui escolhida pra isso, mas é tão minha a maneira que me coloco nesse lugar, que transborda para outras áreas, sem inundá-las.
Sou aquela que tem sede por escutar, tem fome de interpretar e vê na vida mudanças diárias que enchem de possibilidades as histórias.
Por vezes a minha alma doe de tanto aceitar o lugar do acolher, do frustrar, do acompanhar na dor, ou do simples ouvir memórias... 
Sim, existem muitos percalços. Alguns invisíveis, como as faltas, os silêncios, as decepções, e os abandonos.
Porém cada escolha de bancar e assumir o lugar incômodo de sentir com todo o corpo, os sentidos e os sentimentos, veio ainda antes..
Não quis a riqueza material das profissões mais utilitárias e seus status de necessárias.
Preferi ser a amiga que ninguém sabe que é procurada. E que ao oferecer uma orientação não precisa escutar que deve resguardar aquela circunstância.
Nesses dias venho reencontrado esse momento de decidir pela psicologia... Lembro do começo, do antes, do sempre, do que não termina em mim e do reitera...
H.C.Q.F. de 24  outubrode 2020

terça-feira, 6 de outubro de 2020

O Fracasso vem da alma

 O Fracasso é um grande educador! 

Não um professor, que ensina a lição do dia, e você esquece assim que ele apaga a lousa. Também não é um mestre, porque não tem um aspecto de grandeza.

Ele é simples e direto, você aprende por estar passando pela situação e não tem como escolher não passar.

Assim, de maneira objetiva, fracassar ensina sobre o que ninguém poderia te fazer aprender só de ouvir contar, também não daria para aprender só de ler, ou mesmo saber que existe.

No dia de aprender com o Fracasso, todos os seus aprendizados são sentidos por seu corpo, seus sentimentos e seu pensamento. O seu emocional é tomado por uma atmosfera que no começo é tal como  estar em uma tempestade sem abrigo, depois parece quando a chuva passa mais o frio permanece, mais tarde vem a neblina -quando você tem que acordar bem cedo para um compromisso inadiável... Parece com tudo o mais que em outra circunstância qualquer um adiaria, e deixaria para um outro dia, mas agora não tem saída.

Exatamente assim... Quem te fez mal, fica forte e cresce pra cima de você... Quem te fez bem, não consegue voltar a fazer... E só tem uma saída: você se encontrar com você, e todos os seus defeitos, mas também suas qualidades.

Justamente, os seus defeitos ficam em relevo, viram brilhantes e você é o alvo de todo tipo de julgamento. 

Ninguém quer se ermanar ao fracassado. Ninguém quer chegar perto. Existe o medo de levar o fracasso pra própria vida. E também é mais cômodo se identificar a quem está forte e seguro de ter vencido, do que chegar, ao menos perto de quem fracassou. É nesse momento que a gente aprende muito sobre covardia também. E não é fácil enxergar a intenção de quem estava na sua vida e muitas vezes não deveria estar.

De repente, enquanto seu corpo aguenta e se fortalece em meio às intempéries - quanto mais atento a si mesmo, aos seus desejos -surgem sentimentos muito sofisticados, próprios dos momentos difíceis, tais como: esperança, fé, amor próprio.

Esses  sentimentos são como oasis no deserto, atribuem sentido a algo muito simples, que em meio a rotina não valorizamos, por exemplo, beber água.

E como água no deserto começam a brotar suas qualidades diante dos seus olhos. Ali no espelho, esteja ele quebrado, envelhecido, manchado, esquecido... Você passa a perceber virtudes que não se dava conta de ter, e começa a cultivar características, as vezes tímidas, que lhe pareciam desnecessárias. E estas serão grandes companheiras depois que o fracasso for embora.

Sim, um dia, quando você já estiver afeiçoado a sua presença, como uma visita inesperada que te coloca em situações desagradáveis e mesmo assim você vai se alegrando nela sem perceber, o Fracasso vai embora deixando uma saudade enorme regada até a risadas ( foi ele quem inventou o ditado: um dia você vai rir disso tudo).

É que desde o dia em que chegou foi fazendo as malas para partir. Sabia cada sonho que a sua alma pedia para se realizar, enquanto você não podia escutar.

E foi tirando da sua vida: cada pessoa mal intencionada, cada objetivo covarde, cada situação desnecessária que você se colocou por estar surdo para si mesmo.

A mala do Fracasso é sempre enorme, por isso que quando ele passa a gente fica leve. Ela também é muito grande, porque ninguém fracassa por um único motivo.Ele é resultado do acúmulo de empecilhos ao seu crescimento.

 A alma nunca fracassa, mas o Fracasso vem da alma. E só quem tem a alma viva e honesta é capaz de passar pelo Fracasso. Posto que é preciso muita c(alma) pra crescer em vida.

H.C.Q.F de 6  outubrode 2020.